Um Jovem em Tempos de Seca
Não queria falar da casa, das roupas ou do braço. Nem dos pelos da perna, da barba malfeita ou do relógio atrasado. Deitou-se e se pôs a ver o mundo passar por entre os dedos de seus pés.
Sussurros escondidos debaixo do travesseiro começam a se espalhar pelo quarto. Tomam do chão às paredes, lentamente ocupando tempo e espaço até chegar a ele, deitado na cama, inerte. A voz calma e baixa diz algo que ele não entende, mas o lembra de algo. Um grito primitivo, surdo, sem forma, com som de buraco, de nada específico de língua ou melodia, um odor sonoro encantador e surreal. O som do nascer, o lamento do morrer e a angústia que é viver estão naquele sopro que não o deixam continuar dormir.
Flutuando no meio do nada, em algum lugar ali, onde mundos entram em contato, ele vê a loucura em seus próprios olhos e a razão saindo pela porta do quarto. A casa treme, o corpo permanece tácito e o sopro hipnotiza. Ele adormece. Era uma morte sem grito, desfecho sem cena, um fim desprovido de palavras e definições. Apenas o som indicador de mudança de estado, o atravessamento de ele para o, de o para algo, de algo para um, de um para algum, de algum para… e pára e ele vê tudo que irá precisar. Um tiro na escuridão e uma boa razão para isso tudo.
Procurando pelas ovelhas, encontra um campo infestado de dentes-de-leão. Lembra de uma passagem de Orlando, de Virginia Wolf, em cujos relvados não crescia um dente-de-leão há séculos de tão bem tratados que eram. Pior para eles! Aquele lugar lindo e silencioso era a morada do vento da tarde, que se espalha em direção norte, sul, leste e oeste preservando a calmaria no centro. Andou mais um pouco, por cima das flores e arrancou dali um solitário dente-de-leão. Levantou a flor em direção ao céu crepúsculo, laranja e fez um pedido, como costumava quando era criança.
Com o punho fechado, segurando com força, soprou devagar…mas o suficiente para separar o conjunto de sementes do pequeno quartilho, disseminando-as pelo campo. Aquele simples impulso de ar foi capaz de levantar o campo de si, inundando o lugar de pequenos pára-quedas de vida, flor e pólen. Iluminados pelo sol, pareciam fogos de artifício, explodindo pela manhã em um fim de tarde silencioso. A quantidade de partículas e fragmentos tornou a visão do horizonte quase impossível e cego pelas flores, ele arrisca dois passos em direção. Em vão.
Senta no chão e espera a poeira cósmica se assentar. Deita e fita ao céu, aguardando a calmaria voltar à morada do vento com a resposta do seu pedido. Sem medo, sem tempo, só esperança. Os índios que moravam por ali chamavam a flor de “pegadas-de-homem-branco”. As inflorescências brancas indicavam que alguém esteve por ali. Era só esperar. E faz-se o novo.
“Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
—
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro”
T.S. Elliot.
3 comments 21 Maio 2008