Dois dedos de aceno e meio sorriso
é a impaciência, os dedos nervosos, os olhos piscantes e a boca seca. O sol entre as nuvens e os pássaros voando baixo. Eu acho que vai chover. E o amanhã que não chega. Bate outubro mas o dia não vira. Café, coca-cola, chocooky, clodovil. Imobilidade zero. Fique duas rodadas sem jogar. Dois segundos de silêncio. Daqueles tensos. A pausa-suspense. Vida um. Sem paciência pra killers, ato-me a cura. The Cure. Friday I’m in love, certamente.Pensamentos em shuffle e pause no coração. Fast Forward to monday, please?
1 comment 20 Setembro 2008
O dito pelo nao dito.
Pensei em revogar o texto, desdizer as palavras e convencer ao pensamento que um só instante em que lembrei de voce nao passava de mera ilusao. De palavras trocadas, nao entre a gente, mas por alguem que muda a realidade a seu favor. E que depoe contra, afinal, produz prova contra si mesmo. Afirma sim dizer o que nao disse e passa, depois, despercebido entre as frases que eu solto enquanto corro para o abraco.
Achei ter visto sorrisos onde havia ranger de dentes e hoje vejo que o vazio que eu sentia nao pode ser preenchido por nada daquilo que voce esta cheio. De nada. Estou bem com meus ecos. Ouco as vozes na minha cabeca e elas te dizem adeus.
Só queria dizer que se um dia eu falei demais, procurei demais, corri atrás, cheguei na frente, olhei de lado, apertei o passo, cruzei os bracos, estendi a mao ou te fiz perder o tal chao, desculpa. Eu o fiz porque apenas achei que voce, como o texto, era meu. Engano meu. Entrego minhas palavras ao ponto final, sorrio e aceno.
1 comment 19 Agosto 2008
Café com pedras
A pedra em que eu tropecei enquanto tomávamos café, sentados. Alguém me negou um abraço, não por frieza, mas por saber que eu, de braços dados comigo mesmo, poderia pular desse precipício que não e muito maior do que a altura da minha cabeça ao chão. E essa queda, que e a maior das alturas, mede exatamente o tamanho do meu impulso, desse suspiro de vida contida, de toda vontade de pular as pedras que aparecem no caminho. Aprendi que elas não são obstáculos, mas o caminho e que, de pedra em pedra, eu monto meu arsenal. Em meu bolso, meus amigos. Em meus ombros, minha casa. Onde eu moro, são poucos que costumam bater a porta. Alguns se atrevem a chamar meu nome pela janela e, vez em quando, eu apareço. Sorria e acene. Sorria e acene. Ele, com uma pedra, destruiu meu telhado tão bem sustentado pelas minhas armações e desculpas. Fingi, em um instante, rir. Troquei dentes por lágrimas. Por dentro, claro. Gosto amargo. Bati os dedos no copo e pedi mais uma caneca de café, pra ficar. Recebi um abraço em letras, com direito a tapinha nas costas. Janelas abertas e clarabóia a luz do céu. Duas pedras de açúcar, por favor.
1 comment 23 Julho 2008
Um Jovem em Tempos de Seca
Não queria falar da casa, das roupas ou do braço. Nem dos pelos da perna, da barba malfeita ou do relógio atrasado. Deitou-se e se pôs a ver o mundo passar por entre os dedos de seus pés.
Sussurros escondidos debaixo do travesseiro começam a se espalhar pelo quarto. Tomam do chão às paredes, lentamente ocupando tempo e espaço até chegar a ele, deitado na cama, inerte. A voz calma e baixa diz algo que ele não entende, mas o lembra de algo. Um grito primitivo, surdo, sem forma, com som de buraco, de nada específico de língua ou melodia, um odor sonoro encantador e surreal. O som do nascer, o lamento do morrer e a angústia que é viver estão naquele sopro que não o deixam continuar dormir.
Flutuando no meio do nada, em algum lugar ali, onde mundos entram em contato, ele vê a loucura em seus próprios olhos e a razão saindo pela porta do quarto. A casa treme, o corpo permanece tácito e o sopro hipnotiza. Ele adormece. Era uma morte sem grito, desfecho sem cena, um fim desprovido de palavras e definições. Apenas o som indicador de mudança de estado, o atravessamento de ele para o, de o para algo, de algo para um, de um para algum, de algum para… e pára e ele vê tudo que irá precisar. Um tiro na escuridão e uma boa razão para isso tudo.
Procurando pelas ovelhas, encontra um campo infestado de dentes-de-leão. Lembra de uma passagem de Orlando, de Virginia Wolf, em cujos relvados não crescia um dente-de-leão há séculos de tão bem tratados que eram. Pior para eles! Aquele lugar lindo e silencioso era a morada do vento da tarde, que se espalha em direção norte, sul, leste e oeste preservando a calmaria no centro. Andou mais um pouco, por cima das flores e arrancou dali um solitário dente-de-leão. Levantou a flor em direção ao céu crepúsculo, laranja e fez um pedido, como costumava quando era criança.
Com o punho fechado, segurando com força, soprou devagar…mas o suficiente para separar o conjunto de sementes do pequeno quartilho, disseminando-as pelo campo. Aquele simples impulso de ar foi capaz de levantar o campo de si, inundando o lugar de pequenos pára-quedas de vida, flor e pólen. Iluminados pelo sol, pareciam fogos de artifício, explodindo pela manhã em um fim de tarde silencioso. A quantidade de partículas e fragmentos tornou a visão do horizonte quase impossível e cego pelas flores, ele arrisca dois passos em direção. Em vão.
Senta no chão e espera a poeira cósmica se assentar. Deita e fita ao céu, aguardando a calmaria voltar à morada do vento com a resposta do seu pedido. Sem medo, sem tempo, só esperança. Os índios que moravam por ali chamavam a flor de “pegadas-de-homem-branco”. As inflorescências brancas indicavam que alguém esteve por ali. Era só esperar. E faz-se o novo.
“Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
—
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro”
T.S. Elliot.
3 comments 21 Maio 2008
Cool Generation
A: Nossa, que relaxo, hein, B!
B: Relaxo nada, hoje to easy.
A: E esse cabelo despenteado?
B: Despenteado, não! Tá freestyle.
A: Você tá até meio sujinho.
B: Sujinho não. To fazendo um estilo dirty.
A: Mas e o mau cheiro?
B: Aguente. To meio junkie hoje.
A: E essas roupas estranhas, rasgadas e sujas?
B: Quero ficar low-profile. To na minha.
A: Tudo isso é sinônimo em inglês pra maltrapilho?
B: Maltrapilho não! Neo-hippie…cansei de ser yuppie.
A: Droga, em inglês tudo fica mais legal.
B: Muito mais cool.
1 comment 21 Maio 2008
Da Série “Curtas em Itálico”
Eu já estava cansado de ver deitado o mundo entre os dedos do pé e ele me pôs em pé me ensinou a virgular e que não é necessário pontuar sempre que algo acontecer pois nada é para sempre tão eterno que não se pague a prazo por isso é bobagem usar de artifícios tão banais para explicar sentimentos voláteis que vem de algum lugar em direção a lugar algum até que você se depara com a inocência de que nada faz sentido a não ser que é preciso levantar para botar os pés firmes no chão e sentir a terra fria permitindo-se em alguns momentos virgular e pontuar até que se sinta seguro o suficiente para dizer enfim que o ponto nevrálgico desta vida realmente são as reticências (ponto)
1 comment 20 Maio 2008
Fragmentos de Uma Vida Mundana
Joe tinha menos de dois anos quando fez, pela primeira vez, xixi nas calças. Logo em seguida, pisou descalço no chão, ato logo repreendido por sua mãe. Irritado com o repúdio, não parou por aí. Cuspia em visitas, mordia o cachorro e ameaçava a baba com uma mamadeira cheia de leite fervente. Era o diabo. Expulsa Satanás! Ou seria expulsa, Satanás?
Poucos anos depois, já tomava sorvete no frio, corria em casa com tesouras (sem ponta) e cadarços desamarrados. Nunca caiu. Tinha a mania de misturar Coca-Cola com leite, que bebia comendo pão de forma e leite condensado. Assistia ao Aqui Agora enquanto sua pequena barriga juvenil inchava mais do que boi gordo. Coçou a conjutivite, a catapora e passou rubéola para a irmã mais nova. Em troca, ganhou chaxumba. Essa subiu, desceu como bolinha de pebolim até se alojar em seu testículo. Com três esferas, deu início à sua precoce puberdade.
Aos 11 já sabia anatomicamente o que era sexo. Aos 12, já sabia, biblicamente falando, o que era sexo. Suas brincadeiras de casinha com a vizinha incluiam crianças, amor, roupas lavadas e mãos limpas antes do jantar.
Conseguiu seu primeiro emprego como pagador de promessas. Aproveitava as viagens a Aparecida para roubar fiéis e comer infiéis. Odiado por 10 em cada 10 maridos cornos, refugiou-se no Rio de Janeiro, onde aprendeu o dom da malandragem. Mas logo desaprendeu, assim que chegou a São Paulo. Desceu na estação Sé do Metrô, pelo lado esquerdo. Na confusão, perdeu a coragem, a carteira e a libido.
Restava comer. Aos 18, já era famoso nos rodízios de pizza e teve sua primeira overdose de quindins assassinos. Viu a luz no final do túnel e uma placa que dizia: “Vire à esquerda”. Seguiu pela direita e lá encontrou Deus jogando The Sims 2. O Tal parecia tão entretido que achou melhor não incomodar. Voltou pelo caminho mais escuro.
De volta a vida, se entregou ao sofá. A mãe cozinhava dia sim, dia não, uma quantidade suficiente para mantê-lo abastecido. Apaixonou-se por Sonia Abrão. Voltou a fazer xixi na cama e reclamar de pesadelos com dinossauros.
Um dia, a vizinha tocou a campainha com ares de rainha. A rima entrou em sua vida e ali se fez um poeta, de poucas palavras e muitos quilos. Tratou de perder as gordurinhas na esquina para conquistar a loira que morava ao lado. Esbelto e simpático, bateu à porta: “Olá, tudo bem?”. A porta abriu e fechou-se em segundos, deixando fios de cabelo presos no batente.
Depressivo e insatisfeito, voltou pra casa. Abriu o album de família e viu como havia sido feliz quando era criança. Mandou a mãe à merda e o pai ao mercado. Fechou-se no quarto com algumas caixas de Dan Top e barris de coca-cola.
Foi encontrado dias depois, embaixo da cama, com o lençol enrolado na garganta. Um suícidio passional, ocasionado por uma overdose de pequenos pecados, combinados à doces e gorduras-trans. No velório, poucas pessoas, a não ser a mãe, o pai, o ex-chefe e uma loira que chorava copiosamente. Ah, não! Era amor! Ela era tímida, por isso fechou a porta tão depressa. Que pena. Bom, nem sempre a vida faz sentido.
Fim.
5 comments 15 Maio 2008
Como João Aprendeu a Ser Homem Parte II
Ele estava ali. Brincando de esconde-esconde em meio às arvores do jardim. Entre risadas pueris e o medo inocente de ser encontrado, abriga-se onde só ele mesmo poderia achar. Atrás daquela macieira, deitado no jardim, era imbatível se controlasse a respiração ofegante e a gargalhada contida. Mas, com o passar do tempo, a excitação vai diminuindo. O silêncio começa a incomodar e ele se sente sozinho. E como é solitário ser criança. Viver numa fase tão curta, tão instantaneamente breve. Toda criança sabe que não vai morrer criança e, por isso, o caminho parece sem fim. Longo até demais. Será que ele, quando crescer, será como seus pais? Vai encontrar alguém para a vida toda? Mas todinha mesmo? Assim…para sempre? Enquanto ele pensa, não é encontrado em seu esconderijo somente seu, ocultando medos e receios na escuridão. Como é solitário ser uma criança. Como é solitário crescer, processo particular. Saber o que eu sou e o que é o ser. E como é solitário ser. Ele sai de trás da macieira. Um, dois, três, João-salva-o-mundo.
2 comments 14 Maio 2008
To The Cave
Sobre todos os dias inquietos, dias de calor infernal e de batucar em mesas e estantes. Dias iguais, diferentes, dias de céu azul, dias que só acontecem aqui, dias de quem não tem tempo pra pensar, dias pra achar desculpas, pra fazer pratos gelados de doce para após o jantar.
Sobre todos os dias que encontramos as desculpas mais absurdas apenas pra justificar nossa falta de vontade, nosso fraquejar. Sobre as músicas que ouvíamos e deixamos de ouvir, sobre a rádio que cansamos de sintonizar, sobre as pessoas que continuamos amar, sobre os passos que poderíamos ter dado e não demos. Sobre o fim de tudo, os princípios que existem desde que o mundo é mundo, sobre a camisa mal passada, sobre contar o que sonhei a noite pra ele, que sempre estará ali pra escutar.
Sobre banho de mar.
E também sobre os domingos de sol, comer fruta embaixo de árvore e sentir formiga beliscando a bunda, sobre feridas que cicatrizam, pois elas sempre cicatrizam. Sobre provas que tinham semblante de piores do mundo, sobre deitar no chão do quarto com a luz desligada e esperar o tempo passar. Sobre os perfumes característicos das épocas dele, sobre presentes que comprávamos quando o dinheiro era fácil, sobre beijos escondidos e amores platônicos que seriam pra vida toda até o próximo amor.
Sobre velhos amigos, sobre filmes que todos viram – menos você, sobre como pessoas significam mesmo através dos anos, sobre o primeiro fio de cabelo branco, sobre credibilidade e a possibilidade de esgotamento desta, sobre listas de supermercado, festas nos apês.
Sobre Brasil, London, Amsterdam, NY. Sobre o que está longe, o que está perto, o que desejamos, o que perdemos, o que nunca ganharemos, o que sonhamos, o que comemos, o que sangramos, o que acreditamos.
Sobre nós dois.
O futuro, o ontem. O que se passa e o que jamais irá acontecer. O que planejamos.
Sobre o que lembramos, sobre a vida e o que ainda viveremos nela. Sobre ele, o menino luno, da lua.
Que eu amo, e que jamais vai sair da minha vida.
ps: escrito por um amigo, para mim.
2 comments 13 Maio 2008
Love Politique
Todas as cidades se cansam, um dia, de serem admiradas pela sua grandeza. Espaço não e tempo. Tamanho não e nobreza. Conversando com um pequeno município, aqui por perto, chegamos a conclusão que bom mesmo era ser província, carro-forte do pais. Hoje, já não se almeja mais, como antigamente, tornar-se estado. Os fortes já não existem, apesar que ha, por ai, ruínas de vilarejos e abrigos nucleares espalhados por jardins de palácios de antigos reinados. A importância em tudo isso talvez esteja em revelar, pouco a pouco, traços do passado e as cicatrizes do futuro. O presente e dor latente. Alguns reis brincam de expandir impérios, lideres fogem de casa e presidentes lavam as mãos antes de jantar. Eu, ditador de mim, não me canso de extorquir meu próprio território para salvar tua capital. O meu governo e você.
2 comments 11 Maio 2008