Archive for Abril, 2008

Horbal

Sol, muito sol e poucas horas no meu dia. Um ônibus lotado, um assento vago e eu sentei, antes de girar a catraca. Ao meu lado, velhinhos e velhinhas rumo a lugar algum, contabilizando mais alguns anos de vida. Para mim, ali, o tempo não passava. Os livros pesavam sobre meu colo e os pensamentos, em minha cabeça. E ainda era meio-dia.
O ônibus pára. Do ponto, sobe meu avô, sem dificuldades. Fala algo com o motorista e procura um banco para sentar. Eu não queria conversar. Escolher palavras, despertar assuntos, olhar para os olhos de alguém e dizer algo banal, ou não. Não queria nada.Girei a catraca e fui para o outro lado, cercado de jovenzinhos e seus fones estéreos e horas vagas. Ele não me viu. Acho que não viu. Estava tão cansado que pouco sentia culpa por ter sido tão anti-social, por ser vazio e alheio a um pouco de carinho. Os livros já não pesavam mais tanto quanto a culpa que estava ali, adormecida. Os jovenzinhos e seus fones brancos estéreos e olhar distante me incomodavam mais do que o peso do acúmulo dos anos dos corpos daqueles velhinhos que ocupavam a frente do ônibus. Eu nunca quis envelhecer. Fiz um pacto comigo mesmo, de morrer jovem, aos 30 anos. Espero que a natureza respeite e que Deus aceite. Meu avô não parecia comigo, tinha a pele escura, cabelo grisalho e os olhos claros, bonitos. Eu tinha culpa. Culpa e vergonha de não dar um olá. Se ele tivesse me visto, era pior aparecer lá depois. Soaria falso. Se ele não me viu, a conversa seria ridícula, separada por uma catraca e ouvida por um ônibus inteiro. Ah, se eu não tivesse passado a catraca podia sim ter dado um oi, um simples oi, e dormido. Fechar meus olhos e descansar o sono dos justos. Dormi, mas sem justiça, um sono de culpa. No sonho, que realmente parecia sonho, vi meu avô girar a catraca e vir até mim. Sentou ao meu lado, pegou meus livros e colocou em seu colo. Abraçou a minha mão com a sua e ameaçou dizer algo, mas não disse. Olhou-me por alguns segundos e disse: até logo. Acordei, assustado, com a cabeça encostada no vidro. Levantei, era hora de descer. Procurei pelo meu avô, do outro lado do ônibus. Ele já não estava lá. Esta foi a ultima vez que vi meu avô. Hoje, uma grande catraca entre a vida e a morte separa nós dois. O que há do outro lado, eu ainda não sei. Na minha cabeça, ele está cercado por velhinhos e eu aqui, com meus jovenzinhos de fones de ouvido estéreos. Eu, que me recusei a dar um ‘oi’, ouvi um ‘tchau’ que deve durar para sempre até que eu gire esta catraca, antes ou depois dos meus 30 anos.

1 comment 28 Abril 2008

Voce sabe com quem esta falando?

Nada mais genuinamente brasileiro do que encher o peito e dizer: “Você sabe com quem está falando?”. Esse bordão, que remete a um Brasil colonial, encontra um lugar confortável para se instalar nas relações entre os indivíduos dos grandes espaços urbanos na atualidade.

Essa frase tem uma dimensão subjetiva, pois, em uma sociedade desigual composta por elementos tão diversificados e relações diferenciadas entre as pessoas, o bordão identifica os vários sinais estabelecidos entre os grupos sociais para fazer uma distinção.

As relações hierárquicas da vida cotidiana constituem uma oposição velada a verdadeira forma de organização de uma sociedade democrática e liberal, ocultando o papel do Estado como instrumento executivo, legislativo e judiciário do povo para o povo. No espaço urbano atual, estabelecendo uma forma ilusória de homens livres e iguais, a negação das diferenças funciona de modo a dissimular luta de classes e negar desigualdades sociais sob a prerrogativa de proteger os indivíduos de discriminação e preconceito.

Quando olhamos a cidade de São Paulo, observamos um ambiente plural habitado por cerca de 11 milhões de habitantes, composto de migrantes, nacionais e internacionais, tribos, guetos e segregados que convivem neste mesmo espaço e o repartem em tantos outros. Nos rituais cotidianos das relações entre as pessoas temos uma hierarquização desses componentes, com papéis que devem desempenhar dentro dessa sociedade.

A estrutura urbana das cidades propicia uma segregação entre os diferentes grupos econômicos e sociais, reproduzindo uma desigualdade na distribuição do “real poder” na sociedade. Essa desigualdade torna os indivíduos, principalmente os segregados, mais vulneráveis àqueles que exercem o domínio de maneira efetiva, utilizando-se de poder e prestígio.

O “você sabe…” formaliza as diferenças existentes nessa grande comunidade que é a cidade e demonstra como se define a hierarquia existente entre os indivíduos; negros e brancos, ricos ou pobres, classes trabalhistas diferentes, origens diferentes, entre outras distinções. Afinal, a quem pertence esse espaço? Quem é a real autoridade em uma cidade? A polícia, a elite, os políticos? Ao povo?

O “você sabe” é a vitória do individuo sobre a sociedade, é afirmar que se faz parte de uma origem verdadeira, de poder realizar a sua própria vontade numa ação de resistência fugindo das regras que são aplicáveis aos outros, mas não a si próprio. As pessoas não recorrem a esse recurso por ignorância ou desespero, mas pela força dessa expressão, que contempla a lealdade pessoal, a hierarquia, impõe a obediência e faz o outro lembrar de seu papel na sociedade enquanto o agente exime-se de respeitar as normas.

Formamos uma relação de provedor e cliente com o Estado, desvinculando-se da idéia de cidadão de uma forma mais individualista, personalista. Somos todos “clientes-cidadãos”, mas alguns possuem acesso maior a serviços do que outros. É como se o Estado fosse um grande banco, onde todos podem abrir conta, depositar seu dinheiro, reclamar por seus direitos e devem cumprir deveres. No entanto, de acordo com a renda mensal e o tempo de conta aberta, alguns serviços são preferenciais. No caso do Estado, somos todos cidadãos, com direitos iguais guardados por leis, mas, dependendo do papel que se desempenha na sociedade, o acesso e tratamento recebidos são diferenciados.

A sociedade brasileira orgulha-se de ser plural, composta por diferentes raças, religiões e ideologias que convivem harmoniosamente nos ideais iluministas da liberdade, igualdade e fraternidade. O brasileiro prefere preservar a imagem do “bom selvagem”, ingênuo, amistoso do que enfrentar o individualismo cívico disfarçado, uma organização social hierárquica cheia de pequenas corrupções, de “jeitinhos brasileiros”, malandragens e traços de Macunaíma.

Seria um avanço se um canibal utiliza-se de garfo e faca para comer? Se as formas de relações entre as pessoas não são democráticas no sentido de “governo do povo para o povo” e proteger os direitos de minorias contra a “tirania da maioria”, essa suposta representatividade é ilusória e contribui para a dominação social. O “você sabe…” evidencia que há predadores canibais, colocando questões econômicas acima das sociais e usando as regras do jogo a seu favor, devorando silenciosamente os valores liberais. Quem diz esta frase sabe exatamente com quem está falando e o seu peso, do mesmo modo que quem a ouve sabe, subjetivamente, que não sabe, não conhece, mas que deve obedecer.

Add comment 27 Abril 2008

A Última Aparição Pública do Casal Sampaio

Era a última vez e certamente parecia. Ele, de calça preta e camisa branca, ela de vestido vermelho. Frases curtas, ritmo fúnebre e duas crianças no carro. Palavras cortadas, afirmações atravessadas e duas crianças comendo salgadinho. Decidiram avisar aos poucos da separação, parente por parente. Um anúncio oficial seria duro e dividira amigos. Para evitar qualquer confusão posterior ou disputa por confidentes, decidiram: ele conta seu lado da história para quem conheceram antes de 1988 e ela fica com os mais recentes pra si.
O carro pára e eles descem pela última vez. Decidiram que o automóvel fica com ele. Ela fica com a casa. Nunca gostou muito de sedãs, mesmo. Pega na mão do filho, o pai carrega a menor nos braços e tocam a campainha do Buffet. Lá dentro, música alta, crianças correndo de um lado pro outro, no ápice do açúcar no sangue e cheiro de doces e salgados fritos a óleo diesel.
- Boa tarde, qual o nome de vocês?
- Mariana e Fernando Sampaio, somos amigos do tio do aniversariante.
- Ah, sim, claro. Sejam bem-vindos. Podem colocar os presentes na caixa ao lado, por favor.
A pilha colorida de presentes demonstrava o quão importante aquela festinha de criança poderia ser. Em buffets infantis troca-se cartões de apresentação como quarentões bem sucedidos trocam de namorada. Ou seria caso. Fernando agora, mais do que nunca, precisava disso. Novos contatos, novos trabalhos e possíveis amores. Ou boas transas, pelo menos. Com duas crianças para sustentar via pensão ele começava a se tornar o que chamam de ‘pai postiço’, aquele que finge que cuida e se preocupa, depositando dinheiro em dia e comprando material escolar completo antes do ano letivo.
Ao som de Xuxa em uma versão em espanhol, Mariana quase não percebe o soltar das mãos do filho, que corre em direção a outras crianças, com brilhos nos olhos. Parecia que foi ontem que ela mesma chegava em festas assim, com vestidos muito mais comportados. Quando pequena, atraía o olhar de inveja de outras mulheres que diziam: “Ela vai ser linda quando crescer”. Mas o tempo passou, e sua silhueta ‘mothern’, mãe e profissional do administrativo de uma empresa de RH, à base de bolachas e café, não atraía mais do que alguns olhares de um ou outro pai fracassado que a achava mais sexy do que suas mulheres gordas. O vestido lhe garantia alguns paus duros e um pouco de emoção nesses últimos dias.
Na fila do bar, ele pede um whisky. Não tem. Pede vodka. Não tem. Cerveja? Também. Aniversário de crentes, uma latinha de coca descendo direto para sua barriga. A síndrome metabólica o pegou em cheio também. As noites até tarde no trabalho viraram pretexto para comer mal e não comer a mulher. Os parágrafos, fatos e fontes das notícias que produzia lhe pareciam mais excitantes. Nada que desse muito tesão, mas era mais agradável do que ir pra casa e assistir o Jornal Nacional.
Um grupo de mães, ávidos de novidade, ataca Mariana como andorinhas em peixe morto à beira da praia. O belo parte de brincos em suas orelhas chamou atenção de longe à mãe do aniversariante. Queriam saber de quem ela ganhou, quando, onde, como e por quê. “Essa deve valer a pena”, pensou uma das mães. “Com certeza isso é compensação por estar chifrando ela”, imaginou outra. Enquanto conversavam entre si, distraídas pelo pequeno brilhante no brinco, elas deixaram de notar que uma pequena e tímida lágrima escorria pelos olhos de Mariana. Ela via ao fundo, do lado do bar, um casal se beijando com amor. E paixão. E tesão. Ah, que saudade! “Será que algum dia vou ter isso de novo? Se não tiver, que o Fernando também não tenha”, suspirou. Um minuto depois, a lágrima era enxugada e virava sorriso. No casal, apenas um deles usava aliança. Havia algo ali muito certo para ser um casamento. Em silêncio, ela torceu para que a mulher fosse algum tipo de amante, e que roubasse muito dinheiro do cara antes de arrasá-lo.
- Você mora perto daqui?
- Não muito. O trânsito estava horrível. Demoramos um pouco a chegar.
- Chegou até cedo. Veio sozinho?
- Não, com a mulher e filhos. Estamos nos separando.
- Imagino que deve ser difícil.
- Fica ainda mais difícil nesse lugar sem bebida.
- Tem algumas cervejas escondidas na geladeira da cozinha. Aceita?
Fernando diz sim, enquanto é levado pela mão. Muitas cervejas seriam necessárias para tornar aquela noite um pouco mais agradável.
Ela vê o marido levantando acompanhado e fica enciumada. Não pelo fato de estar sendo substituída, mas pela beleza de sua companhia. Por mais que maquiagem e um bom vestido possam ajudar, nada substitui o frescor virginal da pouca idade e isso era algo com que ela não podia competir. Jamais. Melhor dançar. Ao som de Menudos, lembrando os anos 80, quando era menina. Não podia culpar a bebida por seus atos. Quem iria julgá-la depois que soubesse que fazia o que fazia por estar se separando? Sua mãe, com certeza.
Os pequenos brincavam e comiam, como se fosse o último momento de festa. Entre gritos de gol e choros de bebês, o filho mais velho notava que algo estava diferente em casa. As brigas, antes constantes, agora ficavam mais silenciosas. Os jantares eram mais harmônicos, civilizados. Papai começou a buscá-lo na escola também. Isso não era legal. Gostava de contar pra mãe tudo que tinha acontecido no dia, em detalhes, enquanto ela dirigia ouvindo atentamente. Para a pequena, era estranho ver seu pai chorando, quieto, às vezes. O super-homem que a carregava no colo parecia ficar mais fraco quando chegava em casa. Ele parou de lhe dar apelidos, levar no supermercado e brincar no chafariz do shopping. Talvez isso fosse crescer, ou não.
- Não agüento mais essa música. Acho que estou ficando velho.
- Que nada, você está muito bem. Elegante, eu diria.
- Obrigado. Isso foi um flerte?
- E se for?
- Então é.
(risos)
- Vamos sair daqui?
- Pra onde?
- Pra longe.
- Pra casa?
- A minha ou a sua?
- Não sei.
- A minha.
Parecia vingança, Fernando levar alguém pra sua casa, naquela noite. Sair da festa escondido para transar. Transar não, comer, meter, foder. Em casa, em sua cama. Aquela casa que nunca foi sua, cuja decoração nunca teve seu gosto. O ar frio e controlado de Mariana parecia tomar conta do lugar, sufocando-o. Melhor brincar com as palavras, no trabalho. Frases não dizem tudo o que querem dizer, mas Mariana dizia. E isso era tudo, tudo que ele precisava para não querer ir pra casa todas as noites. A não ser naquela noite.
Ela suava. Canta, dança, sem parar. Não se reprima. Pais babando ao ver Mariana, iluminando o salão, sozinha e reluzente. Em outra sintonia, outra conexão, outro mundo, ela sabia que agora, daqui pra frente, seria assim. Teria que dançar a sua dança sozinha. Redescobrir, dentro de si mesma, forças para continuar. Lembrar o que comia, o que pensava e o que fazia antes de se casar. Um misto de medo e excitação tornava apreensiva a espera pela separação. O pronome “nós” seria aposentado, pelo menos por um tempo. Ela agora era “eu”. “E quem sou eu mesmo?”, pensava.
- Posso te pagar um drink?
- Não têm bebidas aqui.
- Eu consigo, se você quiser.
- Mas você é casado.
- Você também é casada. Isso nos torna um tanto quanto inofensivos um ao outro, não?
- Separada. Ainda posso aceitar aquele drink?
- Claro.
Mariana o acompanha até a cozinha, pega uma bebida e encosta na parede ao lado do bar, bem ao fundo, exatamente onde ela viu o casal não-casal se divertindo. Suas pernas estão cansadas e o rapaz tinha olhos bonitos, braços grandes. Ela queria resistir, só não sabia como.
Em casa, ele abre a porta e vê tudo apagado.  O relevo dos objetivos, à meia luz, tornava tudo mais estranho. Comum era chegar em casa e ver Mariana o esperando, assistindo televisão até tarde. Um boa noite e ele seguia, em silêncio, até o banho. Do banho, para a cama. Antes dela deitar. Agora, ali, acompanhado, observava a casa via, o teto da sala com infiltração, o pó sob os móveis e a cortina suja de giz vermelho. Passaram pela sala, pelo quarto das crianças, esse que ainda conservava um pouco de graça, e esperança de que algo poderia ser diferente. Ou, pelo menos, menos pior.
- Tira a roupa.
- Não sei se consigo.
- Falei pra não virmos pra sua casa.
- Não é isso, é tudo. Não é fácil, não sei dizer, mas não imagino como vai ser daqui pra frente, os próximos segundos. A gente aprende a planejar uma vida a dois, por mais miserável que ela seja. Tenho medo de voltar à minha vida miserável, sozinho.
- Você não precisa fazer nada que não queira. Podemos voltar.
- Eu quero. Eu quero. Mas não hoje, não agora, não assim, não aqui. Achei que queria, mas não quero mais. Não sei.
- Ela sabe que você é gay?
- Desconfia.
- Você a ama?
- Sim, mas isso não é suficiente.
- Então, não seja tão duro consigo mesmo. Não responda a perguntas nunca feitas. Vamos voltar a festa e termine essa noite como se deve. Como ela começou. Não precisamos fazer nada, não hoje. É só uma possibilidade, e a vida está cheia delas. Você vai ter que reaprender isso, sozinho.
- Quando a gente é novo, temos vozes dentro da cabeça da gente, que nos dizem do que gostamos, o que não gostamos, o que queremos, o que não queremos, como somos, o que acham que somos, pra onde vamos. Aos poucos, elas foram sumindo. Não as ouço mais. Esse silêncio que me incomoda. É isso que sobrou. Não há mais vozes, nem expectativas. Sobrou nada. Ficou “eu”. O eu sozinho e nada mais.
- Se você as ouvisse, agora, o que acha que elas diriam?
Ela resiste. Ele insiste. Ela cede, ele não cessa e eles se beijam. Muito por pouco tempo, intenso e inseparável. Contando os segundos e aproveitando cada impulso, Mariana aproveita aquele espaço reservado do tempo para se revigorar, sentir-se querida, desejada, amada, sensual, gostosa. O beijo a esquenta e desperta e agora ela tem certeza que há um caminho a continuar. Ainda mais depois de ser flagrada, pela mãe do aniversariante, com o pai do aniversariante. A esposa traída não faz escândalo, mas exige que ela vá embora. Sem perder a pose, ela vai, chama o filho mais velho, que vem emburrado, resmungando, mas vem, para o lado da mãe.
A filha mais nova chora, reclama. Não quer ir. Está tão cedo e ela não comeu ainda nem um brigadeiro. O pai chega e a pega no colo. Faz um aviãozinho com a menina, que sorri, ri e abraça seu pai. Fernando olha para Mariana e a chama para ir embora, para casa. Ela acena, concordando.
Era a última vez e certamente parecia. Silêncio harmonioso, o rádio tocando uma boa música dos anos 80 e duas crianças no carro, dormindo. Não há nada a se falar, tudo já foi dito, agora é só começar a fazer, aos poucos, o que o destino se incumbiu de encaminhar. Terminava, ali, a última aparição pública do casal Sampaio.

2 comments 25 Abril 2008

Apartamento 25

Tarde de sexta-feira, fim de férias. Esses últimos dias parecem passar tão rápido que são perfeitos para não se fazer nada. Tentar resolver tudo em um dia só apenas torna a sensação de perda mais forte. Pegou a bicicleta para dar uma volta, lembrando que a ganhou de seu pai, num aniversário qualquer há muitos anos. Talvez, nem tantos anos assim, mas parecia que por um longo tempo que não ganhava nada novo. Aquela bicicleta poderia ter sido o último presente que recebeu, mas ele não se recordaria. O apego ao que tem é muito menor do que a gana pelo que não possui. Com um misto de saudade e senso de obrigação com sua consciência, foi visitar a casa do pai, como surpresa. Imaginou a sensação do velho de ver o filho ali, disposto a passar a tarde com ele. Por outro lado, viu a possibilidade de ele não estar ali. Nesse caso, poderia subir, assistir TV e acender um baseado.

O caminho era curto, os pensamentos soltos, em poucas pedaladas, estava ali, em frente ao prédio. Não lembrava o número do apartamento. Sentiu vergonha. Como poderia não saber onde seu pai morava? Ligou para a irmã que afirmou: apartamento 25. Tocou. Sem resposta. Tocou novamente. Uma voz de mulher atendeu. Um susto. Ficou mudo, paralisado. “Alô, alô, quem ta aí?”, ela disse. Ele pegou a bicicleta e deu meia-volta, sem responder. Sempre soube que seu pai poderia estar com outra pessoa, mas não há nada como ouvir a voz que por tanto tempo imaginou. Era a voz da outra. Ela não era um demônio, um monstro ou algum tipo de vilã de desenho animado. Era alguém que atendia ao interfone, falando alô como qualquer um. Como sua mãe faria. Desde o começo, ele se recusou a conhecê-la, por orgulho e por preservação. Não é um defensor da moral e dos bons costumes, mas se negava a aceitar como aquilo havia começado. Um caso que tinha que terminar, e ponto. Não sabia como lidar em ver seu pai com outra mulher, fazendo planos, trocando risos e olhares, coisa que ele não via há tanto tempo em sua própria casa. Sentiu pena do pai, que não via sua nova vida aceita pelos filhos. Pena de sua mãe, que ainda tinha esperança que os dois pudessem voltar, para tentar, mais uma vez, ser o que nunca foram. Pena de si mesmo, por ter que aceitar que não havia como negar. Algo mudou, se não tudo. Quase tudo. Aquela bicicleta não mudou. Por mais que houvesse uma ferrugem ou outra que insistisse em corroer a estrutura, ela permanecia em pé, funcional, segura. Foi um presente de aniversário, há muitos anos. Mas ainda era um presente, por todos os aniversários. Ele se lembrava, sim, de quando ganhou a bicicleta. Foi aos 12 anos, era uma noite de calor de julho, com toda a família em sua casa. A camiseta que vestia era vermelha, sua primeira calça jeans e all-star azul, desamarrado. Ele ia tropeçar, sua mãe disse. Não tropeçou. O cheiro de bolo de chocolate, de vela queimada, de bala de coco, de crianças alegres. Ah, ele lembrava, sim. Só fingia não lembrar para tornar mais fácil suportar a dor de saber que aquilo tudo não iria voltar. Era melhor voltar para casa. Podia chegar ali e contar para sua mãe sobre o que tinha visto. Não há nada como a verdade para nos fazer acordar. Ela iria ouvir por alguns minutos, chorar por algumas horas e se entristecer por uma vida toda que não volta mais. Não parecia melhor contar. Calculou o preço da honestidade e viu que o resultado era negativo. O silêncio paga a prazo, a verdade é à vista. Quando se vê, sai mais caro ainda. Melhor, o silêncio, por hoje. Era o preço da bicicleta. Era o preço do sossego. Quanto vale o teu silêncio?

Add comment 24 Abril 2008

Deu a louca na bicharada.,.

Calma, não é título de filme da Sessão da Tarde ou novo hino do São Paulo. Hoje, na home do G1, da Globo.com, três matérias com teor ‘animalesco’ ilustravam as principais notícias do dia:

Urso ataca e mata treinador em centro de treinamento na Califórnia

Elefante invade templo hindu e mata três pessoas na Índia

Jacaré de 2,5 metros invade cozinha na Flórida

Ah, fala sério, né? Coleira neles!

Add comment 23 Abril 2008

Miley Cyrus – Estrela Multimídia

A cantora (urgh!) e atriz (argh!) Miley Cyrus, estrela da série de TV Hannah Montana acabou de concluir a primeira obra literária de sua carreira: uma auto-biografia. Em poucas palavras, ela pretende contar a seus fãs pré-adolescentes detalhes íntimos de sua vida antes e depois da fama, em doze páginas. Sim, 12! Em livro encadernado em capa-dura, com páginas contendo mais espaço em branco do que parágrafos escritos. o.O

Miley_cyrus

Quando questionada sobre o porquê da publicação, a editora da divisão “literária” da Disney, Donna Tagliani disse: “Nós pagamos caro, mas economizamos muito por não precisar contratar um ghost-writer. Miley contou sua história com suas próprias palavras”. [Haja concisão, nem Jorge Tarquini, o ghost-writer mais não-famoso do Brazil faria igual]. E tem mais: “Não há muito o que dizer, e acho que nós estamos certos em dizer que os fãs vão usar o espaço em branco para fazer anotações e desenhar coraçõezinhos”. o.O²

A pequena musa teen já é famosa por sua criatividade em manipular fatos (e fotos) e inventar ficção. Quando algumas fotos suas, de caráter não lá muito didático, quase sexy (?), vazaram na internet, Miley cantou a bola: “Eu derrubei sem querer o microfone pela minha blusa. Eu só estava tentando soltar o fio que enroscou no meu sutiã e tiraram a foto?”. o.O³ [Ok, Hannah Barbera. Começou bem, agora só falta dar uma ligadinha pra titia Britney.]

Se o tema desse pequeno livrinho não agradou, aguarde. Miley tem contrato para mais 5 livros, com título e tema de sua preferência. Mas não espere muito. “A falta de fotos com certeza será decepcionante para homens de meia idade que comprarem os livros para fins não-literários”, finalizou a editora. o.O [seja lá o que se possa entender por "fins não-literários de um livro].

[Agora, falaí, ela tá tão sexy nessa foto quanto o yorkshire da sua vizinha, não é mesmo? Ah, que saudade dos bons tempos de Hanna Barbera]

Add comment 23 Abril 2008

Amor Bandido

A: Tenho que te dizer uma coisa.
B: Fala, amor!
A: Bem, não sei se aqui, na cama, é o melhor lugar.
B: Vai… deixa de onda e fala!
A: Eu não tô sendo legal com você!! Não tô sendo honesta, sabe?
B: Como assim?
A: É, é esquisito.
B: Esquisito? Esquisito como?
A: Sei lá. Não é mais a mesma coisa, sabe?
B: Não tô entendendo direito. Você parece me esconder algo.
A: Na verdade, é exatamente isso!
B: Bom, então é melhor dizer logo!
A: Tô me encontrando com um cara!!
B: Como é que é?!?!?
A: É isso mesmo. Não dá mais pra esconder!Esconder? Fala logo, porra!!
B: Foi instantâneo…sei lá. Não tem justificativa. Aconteceu.
A: Aconteceu?
B: É. Aconteceu. A gente se conheceu numa Quinta Sem-Lei.
A: Quinta Sem-Lei? Porra, fala a minha língua! Que merda é essa?
B: Eu fui visitar a minha prima em São Paulo. Lá, toda quinta-feira tem encontro de jornalistas. Você tava em NY gravando um capítulo da novela das oito.
A: E?
B: E eu acabei me envolvendo com um cara.
A: Eu não acredito!
B: Você pediu sinceridade. Tô sendo sincera!
A: Quem é o cara?
B: Você não conhece!!
A: Lógico que não. Mas me fala dele, caralho!! Quer me deixar louco??
B: Não, claro que não!!
A:Então!! Fala logo, merda!!
B: Ele…-Ele…ele…ele!!! Fala!!
A: É o Bruno Galhardi.
B: Bruno Galhardi?!? Ele é o famoso “quem”??
A: Vê se entende…
B: Entender?!? Vá se foder!!!!
A: Calma!!
B: Ei…Faço novela, cinema, teatro, sou símbolo sexual, fui um sucesso em Notoriedade. O Gilperto Draga escreve papéis pra mim!!! E esse cara??? Quem é o FDP???
A: Você precisa se acalmar!!
B: Me acalmar?! Quem é o cara?!
A: Ele é jornalista. Acabei me apaixonando!!
B: Se apaixonando por um jornalista de merda???
A: Assim, não continuo a conversa. Tô apaixonada!!!
B: Apaixonada?!
A: É…apaixonada. Ele é da minha idade, é divertido, tem um bom papo. É cheio de amigos interessantes. A Livia, a Tania, a Bruna, o Guilherme, o Felipe.
B: Pára…pára. Quero que ele e os amigos se explodam!! Vá pra puta que o pariu, sua piranha de merda!!!
A: Nesse tom é impossível conversar!
B: Você tá brincando…só pode tá brincando!!
A: Não…eu tô apaixonada. Não pude evitar. Vê se entende, porra!!
B: Eu te mato, sua cretina!! Eu te mato!
A: Vai embora. Vai embora!! É melhor você se acalmar!!
B: Desgraçada!!!!!!!!!!!!!!!!
A: Pára…tô ficando sem ar!!!
B: Desgraçada…desgraçada!!
A: Pára…pára…pelo amor de Deus…pá…pá..
B: Bruno Galhardi, um jornalista de merda, que ninguém conhece!! Morra!!! Morra!!
A: Você tá me sufo…
B: Eu vou te matar, sua piranha!!! Vá se foder, vagabunda, cadela!!!……….

De repente, um silêncio toma conta do quarto da Relações Públicas. Um silêncio assustador. Um silêncio que só é abreviado pelo barulho de uma porta que bate forte. E também pelos passos rápidos de um bonitão que vai embora. Agora, ele parece ter se transformado num fugitivo no início da noite com apenas uma idéia na cabeça: eliminar Bruno Galhardi.

1 comment 23 Abril 2008

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