A porta
3 Maio 2008
A casa tinha um ruído de porta. Fechando. De porta fechando, arranhada. O barulho do vento. Minha esperança havia renascido no dia em que meu pai bateu aquela porta pela ultima vez, para voltar. Mas logo se foi, quando ele bateu a porta, para ir. Sair. Queria eu, fugir, um dia, por ela.
Desde então, aprendi que campainha não e sinal de visita. E um alarme do tempo. Um aviso que me lembra que aquele que morava aqui, já não esta mais. Não como era. Não como eu gostava. Pois e, Felipe, as coisas mudaram. Es o homem da casa agora, logo depois do cachorro que late toda vez que a campainha estranha.
Mas, como sempre, a gente da um jeito de se acostumar com tudo. Da saudade, da ausência, dos telefonemas breves, curtos e superficiais, das lagrimas silenciosas que correm o rosto da minha Irma ou do semblante abatido da minha mãe. Seu cabelo já foi mais vermelho. Bem mais vermelho que seus olhos hoje são.
Engraçado, passei a trancar as portas. Cadeado nas janelas. Fechei as torneiras. Transformei a responsabilidade que lentamente caia em meus ombros em ferramenta de amadurecimento. Não sei se era a hora. Mas agora, se era hora de dormir, já não havia mais quem me mandasse ao meu quarto. Costume estranho esse de falar para os filhos se recolherem as 21:30, pontualmente, qualquer dia que fosse da semana.
Mas o tempo passa e encheu a sala da minha casa de clichês e historias já tão contadas por ai. Os rápidos nove meses de gestação trouxeram um sorriso novo, contido, desconfiado. Meu sobrinho nunca me olhou profundamente como eu gostaria que olhasse. Dizem por ai que ha sinceridade nas crianças. Queria que ele me falasse algo, mas ele so tem 3 meses. E, nesse tempo, a visita deixou de tocar a campainha. Adentra a sala como já fez um dia, com um semblante mais leve agora.
Os choros não são mais de minha mãe. Os soluços já não são mais do pescoço ferido da minha irma mais nova. Quem grita agora por seu espaço e um bebe, um pequeno bebe vermelho, de olhos claros, que sorri de vez em quando, ao ver alguma luz acender perto de seu berço.
Cantamos parabéns ao completar um mês, um belo bolo do chocolate ao centro da sala, perto da porta. O espaço e pequeno, mas cabe e acomoda perfeitamente uma família que aprende a viver em casas diferentes. E hoje, o barulho, o ruído e de porta. Ouço a bexiga estourando, balões arranhando o teto e um sorriso em direção a porta. Meu sobrinho, não sei porque, ri em direção a porta. Gargalha e nos 4, três mais um, sentamos ao seu lado para rir de sua felicidade.
Ele ainda não me olhou como eu queria, não me afogou em verdades ou sufocou com sua sinceridade. Mas seu sorriso em direção a porta disse mais, muito mais do que poderia sair de seus lábios vermelhos. Hoje, já não preciso dos cadeados. A segurança já mora em mim e a porta já não e mais a saída.
Entry Filed under: contos. Etiquetas: conto, separação, porta, tristeza, esperanca.
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1.
Señor Montero | 4 Maio 2008 at 12:31 am
É uma questão de tempo até que seu sobrinho o olhe do jeito que você quer ser olhado, afinal as pessoas estão sujeitas aos nossos desejos, não é mesmo?
Portas se abrem e se fecham o tempo todo na nossa vida. Cadeados só prolongam o inevitável. As vezes é melhor deixar que as portas se abram quando devem se abrir e se fechem quando devem se fechar. Mas quem sabe quando é a hora certa?
Eu costumo deixar minhas portas sempre abertas, mas fico sujeito a deixar entrar pessoas erradas e deixar sair as pessoas queridas. Preciso de uma porta daquelas de varanda que fecham sozinhas…
2.
Mariana | 5 Maio 2008 at 7:42 am
your best, ever.
3.
Nana B. | 5 Maio 2008 at 9:23 am
Depois de seu sobrinho te fazer abrir suas portas com um sorriso, tenho certeza de que não tardará a afagá-lo com o olhar.
Lindo texto, parabéns.
Um beijo.