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Fragmentos de Uma Vida Mundana
Joe tinha menos de dois anos quando fez, pela primeira vez, xixi nas calças. Logo em seguida, pisou descalço no chão, ato logo repreendido por sua mãe. Irritado com o repúdio, não parou por aí. Cuspia em visitas, mordia o cachorro e ameaçava a baba com uma mamadeira cheia de leite fervente. Era o diabo. Expulsa Satanás! Ou seria expulsa, Satanás?
Poucos anos depois, já tomava sorvete no frio, corria em casa com tesouras (sem ponta) e cadarços desamarrados. Nunca caiu. Tinha a mania de misturar Coca-Cola com leite, que bebia comendo pão de forma e leite condensado. Assistia ao Aqui Agora enquanto sua pequena barriga juvenil inchava mais do que boi gordo. Coçou a conjutivite, a catapora e passou rubéola para a irmã mais nova. Em troca, ganhou chaxumba. Essa subiu, desceu como bolinha de pebolim até se alojar em seu testículo. Com três esferas, deu início à sua precoce puberdade.
Aos 11 já sabia anatomicamente o que era sexo. Aos 12, já sabia, biblicamente falando, o que era sexo. Suas brincadeiras de casinha com a vizinha incluiam crianças, amor, roupas lavadas e mãos limpas antes do jantar.
Conseguiu seu primeiro emprego como pagador de promessas. Aproveitava as viagens a Aparecida para roubar fiéis e comer infiéis. Odiado por 10 em cada 10 maridos cornos, refugiou-se no Rio de Janeiro, onde aprendeu o dom da malandragem. Mas logo desaprendeu, assim que chegou a São Paulo. Desceu na estação Sé do Metrô, pelo lado esquerdo. Na confusão, perdeu a coragem, a carteira e a libido.
Restava comer. Aos 18, já era famoso nos rodízios de pizza e teve sua primeira overdose de quindins assassinos. Viu a luz no final do túnel e uma placa que dizia: “Vire à esquerda”. Seguiu pela direita e lá encontrou Deus jogando The Sims 2. O Tal parecia tão entretido que achou melhor não incomodar. Voltou pelo caminho mais escuro.
De volta a vida, se entregou ao sofá. A mãe cozinhava dia sim, dia não, uma quantidade suficiente para mantê-lo abastecido. Apaixonou-se por Sonia Abrão. Voltou a fazer xixi na cama e reclamar de pesadelos com dinossauros.
Um dia, a vizinha tocou a campainha com ares de rainha. A rima entrou em sua vida e ali se fez um poeta, de poucas palavras e muitos quilos. Tratou de perder as gordurinhas na esquina para conquistar a loira que morava ao lado. Esbelto e simpático, bateu à porta: “Olá, tudo bem?”. A porta abriu e fechou-se em segundos, deixando fios de cabelo presos no batente.
Depressivo e insatisfeito, voltou pra casa. Abriu o album de família e viu como havia sido feliz quando era criança. Mandou a mãe à merda e o pai ao mercado. Fechou-se no quarto com algumas caixas de Dan Top e barris de coca-cola.
Foi encontrado dias depois, embaixo da cama, com o lençol enrolado na garganta. Um suícidio passional, ocasionado por uma overdose de pequenos pecados, combinados à doces e gorduras-trans. No velório, poucas pessoas, a não ser a mãe, o pai, o ex-chefe e uma loira que chorava copiosamente. Ah, não! Era amor! Ela era tímida, por isso fechou a porta tão depressa. Que pena. Bom, nem sempre a vida faz sentido.
Fim.
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