Um Jovem em Tempos de Seca

21 Maio 2008

Não queria falar da casa, das roupas ou do braço. Nem dos pelos da perna, da barba malfeita ou do relógio atrasado. Deitou-se e se pôs a ver o mundo passar por entre os dedos de seus pés.

Sussurros escondidos debaixo do travesseiro começam a se espalhar pelo quarto. Tomam do chão às paredes, lentamente ocupando tempo e espaço até chegar a ele, deitado na cama, inerte. A voz calma e baixa diz algo que ele não entende, mas o lembra de algo. Um grito primitivo, surdo, sem forma, com som de buraco, de nada específico de língua ou melodia, um odor sonoro encantador e surreal. O som do nascer, o lamento do morrer e a angústia que é viver estão naquele sopro que não o deixam continuar dormir.

Flutuando no meio do nada, em algum lugar ali, onde mundos entram em contato, ele vê a loucura em seus próprios olhos e a razão saindo pela porta do quarto. A casa treme, o corpo permanece tácito e o sopro hipnotiza. Ele adormece. Era uma morte sem grito, desfecho sem cena, um fim desprovido de palavras e definições. Apenas o som indicador de mudança de estado, o atravessamento de ele para o, de o para algo, de algo para um, de um para algum, de algum para… e pára e ele vê tudo que irá precisar. Um tiro na escuridão e uma boa razão para isso tudo.

Procurando pelas ovelhas, encontra um campo infestado de dentes-de-leão. Lembra de uma passagem de Orlando, de Virginia Wolf, em cujos relvados não crescia um dente-de-leão há séculos de tão bem tratados que eram. Pior para eles! Aquele lugar lindo e silencioso era a morada do vento da tarde, que se espalha em direção norte, sul, leste e oeste preservando a calmaria no centro. Andou mais um pouco, por cima das flores e arrancou dali um solitário dente-de-leão. Levantou a flor em direção ao céu crepúsculo, laranja e fez um pedido, como costumava quando era criança.

Com o punho fechado, segurando com força, soprou devagar…mas o suficiente para separar o conjunto de sementes do pequeno quartilho, disseminando-as pelo campo. Aquele simples impulso de ar foi capaz de levantar o campo de si, inundando o lugar de pequenos pára-quedas de vida, flor e pólen. Iluminados pelo sol, pareciam fogos de artifício, explodindo pela manhã em um fim de tarde silencioso. A quantidade de partículas e fragmentos tornou a visão do horizonte quase impossível e cego pelas flores, ele arrisca dois passos em direção. Em vão.

Senta no chão e espera a poeira cósmica se assentar. Deita e fita ao céu, aguardando a calmaria voltar à morada do vento com a resposta do seu pedido. Sem medo, sem tempo, só esperança. Os índios que moravam por ali chamavam a flor de “pegadas-de-homem-branco”. As inflorescências brancas indicavam que alguém esteve por ali. Era só esperar. E faz-se o novo.

“Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro”

T.S. Elliot.

Entry Filed under: contos. Tags: , , , , .

3 Comments Add your own

  • 1. Amanda  |  25 Maio 2008 at 1:08 am

    Adorei.
    Consegui estar no campo, junto com o personagem, perceber a sua beleza.

    Beijos

    Responder
  • 2. Mariana  |  25 Maio 2008 at 7:32 pm

    seríamos tanto, se fossemos.

    Responder
  • 3. Nana B.  |  3 Julho 2008 at 8:47 am

    A inércia obrigada a pensar.

    Responder

Leave a Comment

Required

Required, hidden

Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Tags

animais apartamento armageddon assassinato avô bizarro caos capitalismo cinema comunismo confusao contemporaneo conto critica cyrus democracia deus disney diálogo festa fim do mundo hanna hierarquia social indie ironia jornalismo literatura miley montana morte nonsense orkut passado politica saudade saudades segregacao separação sexo sociedade sonho sossego tristeza universitario vida

Calendário

Maio 2008
D S T Q Q S S
« Abr   Jul »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Arquivo

Categorias

Comentários

Nana B. em Dois dedos de aceno e meio…
Wallace Souza em Cool Generation
Amanda em O dito pelo nao dito.
Nana B. em Café com pedras
Nana B. em Um Jovem em Tempos de Sec…