Posts filed under 'pensata'

Café com pedras

A pedra em que eu tropecei enquanto tomávamos café, sentados. Alguém me negou um abraço, não por frieza, mas por saber que eu, de braços dados comigo mesmo, poderia pular desse precipício que não e muito maior do que a altura da minha cabeça ao chão. E essa queda, que e a maior das alturas, mede exatamente o tamanho do meu impulso, desse suspiro de vida contida, de toda vontade de pular as pedras que aparecem no caminho. Aprendi que elas não são obstáculos, mas o caminho e que, de pedra em pedra, eu monto meu arsenal. Em meu bolso, meus amigos. Em meus ombros, minha casa. Onde eu moro, são poucos que costumam bater a porta. Alguns se atrevem a chamar meu nome pela janela e, vez em quando, eu apareço. Sorria e acene. Sorria e acene. Ele, com uma pedra, destruiu meu telhado tão bem sustentado pelas minhas armações e desculpas. Fingi, em um instante, rir. Troquei dentes por lágrimas. Por dentro, claro. Gosto amargo. Bati os dedos no copo e pedi mais uma caneca de café, pra ficar. Recebi um abraço em letras, com direito a tapinha nas costas. Janelas abertas e clarabóia a luz do céu. Duas pedras de açúcar, por favor.

1 comment 23 Julho 2008

To The Cave

Sobre todos os dias inquietos, dias de calor infernal e de batucar em mesas e estantes. Dias iguais, diferentes, dias de céu azul, dias que só acontecem aqui, dias de quem não tem tempo pra pensar, dias pra achar desculpas, pra fazer pratos gelados de doce para após o jantar.

Sobre todos os dias que encontramos as desculpas mais absurdas apenas pra justificar nossa falta de vontade, nosso fraquejar. Sobre as músicas que ouvíamos e deixamos de ouvir, sobre a rádio que cansamos de sintonizar, sobre as pessoas que continuamos amar, sobre os passos que poderíamos ter dado e não demos. Sobre o fim de tudo, os princípios que existem desde que o mundo é mundo, sobre a camisa mal passada, sobre contar o que sonhei a noite pra ele, que sempre estará ali pra escutar.

Sobre banho de mar.

E também sobre os domingos de sol, comer fruta embaixo de árvore e sentir formiga beliscando a bunda, sobre feridas que cicatrizam, pois elas sempre cicatrizam. Sobre provas que tinham semblante de piores do mundo, sobre deitar no chão do quarto com a luz desligada e esperar o tempo passar. Sobre os perfumes característicos das épocas dele, sobre presentes que comprávamos quando o dinheiro era fácil, sobre beijos escondidos e amores platônicos que seriam pra vida toda até o próximo amor.

Sobre velhos amigos, sobre filmes que todos viram – menos você, sobre como pessoas significam mesmo através dos anos, sobre o primeiro fio de cabelo branco, sobre credibilidade e a possibilidade de esgotamento desta, sobre listas de supermercado, festas nos apês.

Sobre Brasil, London, Amsterdam, NY. Sobre o que está longe, o que está perto, o que desejamos, o que perdemos, o que nunca ganharemos, o que sonhamos, o que comemos, o que sangramos, o que acreditamos.

Sobre nós dois.

O futuro, o ontem. O que se passa e o que jamais irá acontecer. O que planejamos.

Sobre o que lembramos, sobre a vida e o que ainda viveremos nela. Sobre ele, o menino luno, da lua.

Que eu amo, e que jamais vai sair da minha vida.

ps: escrito por um amigo, para mim.

2 comments 13 Maio 2008

Voce sabe com quem esta falando?

Nada mais genuinamente brasileiro do que encher o peito e dizer: “Você sabe com quem está falando?”. Esse bordão, que remete a um Brasil colonial, encontra um lugar confortável para se instalar nas relações entre os indivíduos dos grandes espaços urbanos na atualidade.

Essa frase tem uma dimensão subjetiva, pois, em uma sociedade desigual composta por elementos tão diversificados e relações diferenciadas entre as pessoas, o bordão identifica os vários sinais estabelecidos entre os grupos sociais para fazer uma distinção.

As relações hierárquicas da vida cotidiana constituem uma oposição velada a verdadeira forma de organização de uma sociedade democrática e liberal, ocultando o papel do Estado como instrumento executivo, legislativo e judiciário do povo para o povo. No espaço urbano atual, estabelecendo uma forma ilusória de homens livres e iguais, a negação das diferenças funciona de modo a dissimular luta de classes e negar desigualdades sociais sob a prerrogativa de proteger os indivíduos de discriminação e preconceito.

Quando olhamos a cidade de São Paulo, observamos um ambiente plural habitado por cerca de 11 milhões de habitantes, composto de migrantes, nacionais e internacionais, tribos, guetos e segregados que convivem neste mesmo espaço e o repartem em tantos outros. Nos rituais cotidianos das relações entre as pessoas temos uma hierarquização desses componentes, com papéis que devem desempenhar dentro dessa sociedade.

A estrutura urbana das cidades propicia uma segregação entre os diferentes grupos econômicos e sociais, reproduzindo uma desigualdade na distribuição do “real poder” na sociedade. Essa desigualdade torna os indivíduos, principalmente os segregados, mais vulneráveis àqueles que exercem o domínio de maneira efetiva, utilizando-se de poder e prestígio.

O “você sabe…” formaliza as diferenças existentes nessa grande comunidade que é a cidade e demonstra como se define a hierarquia existente entre os indivíduos; negros e brancos, ricos ou pobres, classes trabalhistas diferentes, origens diferentes, entre outras distinções. Afinal, a quem pertence esse espaço? Quem é a real autoridade em uma cidade? A polícia, a elite, os políticos? Ao povo?

O “você sabe” é a vitória do individuo sobre a sociedade, é afirmar que se faz parte de uma origem verdadeira, de poder realizar a sua própria vontade numa ação de resistência fugindo das regras que são aplicáveis aos outros, mas não a si próprio. As pessoas não recorrem a esse recurso por ignorância ou desespero, mas pela força dessa expressão, que contempla a lealdade pessoal, a hierarquia, impõe a obediência e faz o outro lembrar de seu papel na sociedade enquanto o agente exime-se de respeitar as normas.

Formamos uma relação de provedor e cliente com o Estado, desvinculando-se da idéia de cidadão de uma forma mais individualista, personalista. Somos todos “clientes-cidadãos”, mas alguns possuem acesso maior a serviços do que outros. É como se o Estado fosse um grande banco, onde todos podem abrir conta, depositar seu dinheiro, reclamar por seus direitos e devem cumprir deveres. No entanto, de acordo com a renda mensal e o tempo de conta aberta, alguns serviços são preferenciais. No caso do Estado, somos todos cidadãos, com direitos iguais guardados por leis, mas, dependendo do papel que se desempenha na sociedade, o acesso e tratamento recebidos são diferenciados.

A sociedade brasileira orgulha-se de ser plural, composta por diferentes raças, religiões e ideologias que convivem harmoniosamente nos ideais iluministas da liberdade, igualdade e fraternidade. O brasileiro prefere preservar a imagem do “bom selvagem”, ingênuo, amistoso do que enfrentar o individualismo cívico disfarçado, uma organização social hierárquica cheia de pequenas corrupções, de “jeitinhos brasileiros”, malandragens e traços de Macunaíma.

Seria um avanço se um canibal utiliza-se de garfo e faca para comer? Se as formas de relações entre as pessoas não são democráticas no sentido de “governo do povo para o povo” e proteger os direitos de minorias contra a “tirania da maioria”, essa suposta representatividade é ilusória e contribui para a dominação social. O “você sabe…” evidencia que há predadores canibais, colocando questões econômicas acima das sociais e usando as regras do jogo a seu favor, devorando silenciosamente os valores liberais. Quem diz esta frase sabe exatamente com quem está falando e o seu peso, do mesmo modo que quem a ouve sabe, subjetivamente, que não sabe, não conhece, mas que deve obedecer.

Add comment 27 Abril 2008

Deu a louca na bicharada.,.

Calma, não é título de filme da Sessão da Tarde ou novo hino do São Paulo. Hoje, na home do G1, da Globo.com, três matérias com teor ‘animalesco’ ilustravam as principais notícias do dia:

Urso ataca e mata treinador em centro de treinamento na Califórnia

Elefante invade templo hindu e mata três pessoas na Índia

Jacaré de 2,5 metros invade cozinha na Flórida

Ah, fala sério, né? Coleira neles!

Add comment 23 Abril 2008


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