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Um Jovem em Tempos de Seca

Não queria falar da casa, das roupas ou do braço. Nem dos pelos da perna, da barba malfeita ou do relógio atrasado. Deitou-se e se pôs a ver o mundo passar por entre os dedos de seus pés.

Sussurros escondidos debaixo do travesseiro começam a se espalhar pelo quarto. Tomam do chão às paredes, lentamente ocupando tempo e espaço até chegar a ele, deitado na cama, inerte. A voz calma e baixa diz algo que ele não entende, mas o lembra de algo. Um grito primitivo, surdo, sem forma, com som de buraco, de nada específico de língua ou melodia, um odor sonoro encantador e surreal. O som do nascer, o lamento do morrer e a angústia que é viver estão naquele sopro que não o deixam continuar dormir.

Flutuando no meio do nada, em algum lugar ali, onde mundos entram em contato, ele vê a loucura em seus próprios olhos e a razão saindo pela porta do quarto. A casa treme, o corpo permanece tácito e o sopro hipnotiza. Ele adormece. Era uma morte sem grito, desfecho sem cena, um fim desprovido de palavras e definições. Apenas o som indicador de mudança de estado, o atravessamento de ele para o, de o para algo, de algo para um, de um para algum, de algum para… e pára e ele vê tudo que irá precisar. Um tiro na escuridão e uma boa razão para isso tudo.

Procurando pelas ovelhas, encontra um campo infestado de dentes-de-leão. Lembra de uma passagem de Orlando, de Virginia Wolf, em cujos relvados não crescia um dente-de-leão há séculos de tão bem tratados que eram. Pior para eles! Aquele lugar lindo e silencioso era a morada do vento da tarde, que se espalha em direção norte, sul, leste e oeste preservando a calmaria no centro. Andou mais um pouco, por cima das flores e arrancou dali um solitário dente-de-leão. Levantou a flor em direção ao céu crepúsculo, laranja e fez um pedido, como costumava quando era criança.

Com o punho fechado, segurando com força, soprou devagar…mas o suficiente para separar o conjunto de sementes do pequeno quartilho, disseminando-as pelo campo. Aquele simples impulso de ar foi capaz de levantar o campo de si, inundando o lugar de pequenos pára-quedas de vida, flor e pólen. Iluminados pelo sol, pareciam fogos de artifício, explodindo pela manhã em um fim de tarde silencioso. A quantidade de partículas e fragmentos tornou a visão do horizonte quase impossível e cego pelas flores, ele arrisca dois passos em direção. Em vão.

Senta no chão e espera a poeira cósmica se assentar. Deita e fita ao céu, aguardando a calmaria voltar à morada do vento com a resposta do seu pedido. Sem medo, sem tempo, só esperança. Os índios que moravam por ali chamavam a flor de “pegadas-de-homem-branco”. As inflorescências brancas indicavam que alguém esteve por ali. Era só esperar. E faz-se o novo.

“Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro”

T.S. Elliot.

3 comments 21 Maio 2008

Fragmentos de Uma Vida Mundana

Joe tinha menos de dois anos quando fez, pela primeira vez, xixi nas calças. Logo em seguida, pisou descalço no chão, ato logo repreendido por sua mãe. Irritado com o repúdio, não parou por aí. Cuspia em visitas, mordia o cachorro e ameaçava a baba com uma mamadeira cheia de leite fervente. Era o diabo. Expulsa Satanás! Ou seria expulsa, Satanás?

Poucos anos depois, já tomava sorvete no frio, corria em casa com tesouras (sem ponta) e cadarços desamarrados. Nunca caiu. Tinha a mania de misturar Coca-Cola com leite, que bebia comendo pão de forma e leite condensado. Assistia ao Aqui Agora enquanto sua pequena barriga juvenil inchava mais do que boi gordo. Coçou a conjutivite, a catapora e passou rubéola para a irmã mais nova. Em troca, ganhou chaxumba. Essa subiu, desceu como bolinha de pebolim até se alojar em seu testículo. Com três esferas, deu início à sua precoce puberdade.

Aos 11 já sabia anatomicamente o que era sexo. Aos 12, já sabia, biblicamente falando, o que era sexo. Suas brincadeiras de casinha com a vizinha incluiam crianças, amor, roupas lavadas e mãos limpas antes do jantar.

Conseguiu seu primeiro emprego como pagador de promessas. Aproveitava as viagens a Aparecida para roubar fiéis e comer infiéis. Odiado por 10 em cada 10 maridos cornos, refugiou-se no Rio de Janeiro, onde aprendeu o dom da malandragem. Mas logo desaprendeu, assim que chegou a São Paulo. Desceu na estação Sé do Metrô, pelo lado esquerdo. Na confusão, perdeu a coragem, a carteira e a libido.

Restava comer. Aos 18, já era famoso nos rodízios de pizza e teve sua primeira overdose de quindins assassinos. Viu a luz no final do túnel e uma placa que dizia: “Vire à esquerda”. Seguiu pela direita e lá encontrou Deus jogando The Sims 2. O Tal parecia tão entretido que achou melhor não incomodar. Voltou pelo caminho mais escuro.

De volta a vida, se entregou ao sofá. A mãe cozinhava dia sim, dia não, uma quantidade suficiente para mantê-lo abastecido. Apaixonou-se por Sonia Abrão. Voltou a fazer xixi na cama e reclamar de pesadelos com dinossauros.

Um dia, a vizinha tocou a campainha com ares de rainha. A rima entrou em sua vida e ali se fez um poeta, de poucas palavras e muitos quilos. Tratou de perder as gordurinhas na esquina para conquistar a loira que morava ao lado. Esbelto e simpático, bateu à porta: “Olá, tudo bem?”. A porta abriu e fechou-se em segundos, deixando fios de cabelo presos no batente.

Depressivo e insatisfeito, voltou pra casa. Abriu o album de família e viu como havia sido feliz quando era criança. Mandou a mãe à merda e o pai ao mercado. Fechou-se no quarto com algumas caixas de Dan Top e barris de coca-cola.

Foi encontrado dias depois, embaixo da cama, com o lençol enrolado na garganta. Um suícidio passional, ocasionado por uma overdose de pequenos pecados, combinados à doces e gorduras-trans. No velório, poucas pessoas, a não ser a mãe, o pai, o ex-chefe e uma loira que chorava copiosamente. Ah, não! Era amor! Ela era tímida, por isso fechou a porta tão depressa. Que pena. Bom, nem sempre a vida faz sentido.

Fim.

5 comments 15 Maio 2008

Como João Aprendeu a Ser Homem Parte I

Foi pulando corda! Sim, não era sua vez, mas ele queria pular! Agora! O ritmo era rápido e inconstante. Crianças maiores, mais velhas, rindo, sorrindo, dele, pra ele, de tudo, do nada. O medo de cair na frente de todo mundo, a coragem de mostrar que conseguiria, a timidez se de colocar no meio do grupo e a desinibição de quem só queria pular…e pular. Sua vez, ele se coloca em posição, os dois pés juntos, ao lado da corda. Amarra bem os cadarços do all star branco surrado, puxa a barra da calça jeans. Alonga os braços, se concentra, coça a orelha e até reza. Era agora ou nunca, sua chance de pular corda sozinho, pela primeira vez, na escola nova. Todo o mundo olha. Naquele instante, a faxineira parou de varrer, a professora de educação física largou o apito, os meninos pararam de jogar bola em frente ao gol para ver ele pular corda com as garotas mais velhas. Primeira volta. Pulo. Segunda volta. Pulo. Terceir…pulo! Quart…pulo! Quin..pulo! Sex…pulo! Sé…uh! Derrubado pela corda que puxou sua perna direita, ele cai, de costas, no chão. A lei da gravidade é cruel e não poupa ninguém. Alguns riem e apontam. Outros, ameaçam correr até a quadra. Antes disso, ele se levanta e grita: “Mais uma vez!”. Os dois pés juntos, ao lado da corda. Amarra bem os cadarços do all star branco surrado, puxa a barra da calça jeans. Alonga os braços, se concentra, coça a orelha. Não reza, mas seja o que Deus quiser. Primeira volta. Pulo. Segunda volta. Pulo. Terceira. Pulo. Quarta. Pulo Quinta. Pulo. Passando da sexta, ele fecha os olhos e se concentra no rápido som da corda tocando o chão. Sente suas pernas leves, a cabeça baixa. Os pés mal tocam o chão e ele levita, por alguns segundos, ou minutos, enquanto a contagem continua até ele decidir parar. Com o all star surrado no chão, ele agradece e vai sentar. Hoje, pular corda. Amanhã, atravessar a rua sozinho.

2 comments 8 Maio 2008

A porta

A casa tinha um ruído de porta. Fechando. De porta fechando, arranhada. O barulho do vento. Minha esperança havia renascido no dia em que meu pai bateu aquela porta pela ultima vez, para voltar. Mas logo se foi, quando ele bateu a porta, para ir. Sair. Queria eu, fugir, um dia, por ela.
Desde então, aprendi que campainha não e sinal de visita. E um alarme do tempo. Um aviso que me lembra que aquele que morava aqui, já não esta mais. Não como era. Não como eu gostava. Pois e, Felipe, as coisas mudaram. Es o homem da casa agora, logo depois do cachorro que late toda vez que a campainha estranha.
Mas, como sempre, a gente da um jeito de se acostumar com tudo. Da saudade, da ausência, dos telefonemas breves, curtos e superficiais, das lagrimas silenciosas que correm o rosto da minha Irma ou do semblante abatido da minha mãe. Seu cabelo já foi mais vermelho. Bem mais vermelho que seus olhos hoje são.
Engraçado, passei a trancar as portas. Cadeado nas janelas. Fechei as torneiras. Transformei a responsabilidade que lentamente caia em meus ombros em ferramenta de amadurecimento. Não sei se era a hora. Mas agora, se era hora de dormir, já não havia mais quem me mandasse ao meu quarto. Costume estranho esse de falar para os filhos se recolherem as 21:30, pontualmente, qualquer dia que fosse da semana.
Mas o tempo passa e encheu a sala da minha casa de clichês e historias já tão contadas por ai. Os rápidos nove meses de gestação trouxeram um sorriso novo, contido, desconfiado. Meu sobrinho nunca me olhou profundamente como eu gostaria que olhasse. Dizem por ai que ha sinceridade nas crianças. Queria que ele me falasse algo, mas ele so tem 3 meses. E, nesse tempo, a visita deixou de tocar a campainha. Adentra a sala como já fez um dia, com um semblante mais leve agora.
Os choros não são mais de minha mãe. Os soluços já não são mais do pescoço ferido da minha irma mais nova. Quem grita agora por seu espaço e um bebe, um pequeno bebe vermelho, de olhos claros, que sorri de vez em quando, ao ver alguma luz acender perto de seu berço.
Cantamos parabéns ao completar um mês, um belo bolo do chocolate ao centro da sala, perto da porta. O espaço e pequeno, mas cabe e acomoda perfeitamente uma família que aprende a viver em casas diferentes. E hoje, o barulho, o ruído e de porta. Ouço a bexiga estourando, balões arranhando o teto e um sorriso em direção a porta. Meu sobrinho, não sei porque, ri em direção a porta. Gargalha e nos 4, três mais um, sentamos ao seu lado para rir de sua felicidade.
Ele ainda não me olhou como eu queria, não me afogou em verdades ou sufocou com sua sinceridade. Mas seu sorriso em direção a porta disse mais, muito mais do que poderia sair de seus lábios vermelhos. Hoje, já não preciso dos cadeados. A segurança já mora em mim e a porta já não e mais a saída.

3 comments 3 Maio 2008

A Última Aparição Pública do Casal Sampaio

Era a última vez e certamente parecia. Ele, de calça preta e camisa branca, ela de vestido vermelho. Frases curtas, ritmo fúnebre e duas crianças no carro. Palavras cortadas, afirmações atravessadas e duas crianças comendo salgadinho. Decidiram avisar aos poucos da separação, parente por parente. Um anúncio oficial seria duro e dividira amigos. Para evitar qualquer confusão posterior ou disputa por confidentes, decidiram: ele conta seu lado da história para quem conheceram antes de 1988 e ela fica com os mais recentes pra si.
O carro pára e eles descem pela última vez. Decidiram que o automóvel fica com ele. Ela fica com a casa. Nunca gostou muito de sedãs, mesmo. Pega na mão do filho, o pai carrega a menor nos braços e tocam a campainha do Buffet. Lá dentro, música alta, crianças correndo de um lado pro outro, no ápice do açúcar no sangue e cheiro de doces e salgados fritos a óleo diesel.
- Boa tarde, qual o nome de vocês?
- Mariana e Fernando Sampaio, somos amigos do tio do aniversariante.
- Ah, sim, claro. Sejam bem-vindos. Podem colocar os presentes na caixa ao lado, por favor.
A pilha colorida de presentes demonstrava o quão importante aquela festinha de criança poderia ser. Em buffets infantis troca-se cartões de apresentação como quarentões bem sucedidos trocam de namorada. Ou seria caso. Fernando agora, mais do que nunca, precisava disso. Novos contatos, novos trabalhos e possíveis amores. Ou boas transas, pelo menos. Com duas crianças para sustentar via pensão ele começava a se tornar o que chamam de ‘pai postiço’, aquele que finge que cuida e se preocupa, depositando dinheiro em dia e comprando material escolar completo antes do ano letivo.
Ao som de Xuxa em uma versão em espanhol, Mariana quase não percebe o soltar das mãos do filho, que corre em direção a outras crianças, com brilhos nos olhos. Parecia que foi ontem que ela mesma chegava em festas assim, com vestidos muito mais comportados. Quando pequena, atraía o olhar de inveja de outras mulheres que diziam: “Ela vai ser linda quando crescer”. Mas o tempo passou, e sua silhueta ‘mothern’, mãe e profissional do administrativo de uma empresa de RH, à base de bolachas e café, não atraía mais do que alguns olhares de um ou outro pai fracassado que a achava mais sexy do que suas mulheres gordas. O vestido lhe garantia alguns paus duros e um pouco de emoção nesses últimos dias.
Na fila do bar, ele pede um whisky. Não tem. Pede vodka. Não tem. Cerveja? Também. Aniversário de crentes, uma latinha de coca descendo direto para sua barriga. A síndrome metabólica o pegou em cheio também. As noites até tarde no trabalho viraram pretexto para comer mal e não comer a mulher. Os parágrafos, fatos e fontes das notícias que produzia lhe pareciam mais excitantes. Nada que desse muito tesão, mas era mais agradável do que ir pra casa e assistir o Jornal Nacional.
Um grupo de mães, ávidos de novidade, ataca Mariana como andorinhas em peixe morto à beira da praia. O belo parte de brincos em suas orelhas chamou atenção de longe à mãe do aniversariante. Queriam saber de quem ela ganhou, quando, onde, como e por quê. “Essa deve valer a pena”, pensou uma das mães. “Com certeza isso é compensação por estar chifrando ela”, imaginou outra. Enquanto conversavam entre si, distraídas pelo pequeno brilhante no brinco, elas deixaram de notar que uma pequena e tímida lágrima escorria pelos olhos de Mariana. Ela via ao fundo, do lado do bar, um casal se beijando com amor. E paixão. E tesão. Ah, que saudade! “Será que algum dia vou ter isso de novo? Se não tiver, que o Fernando também não tenha”, suspirou. Um minuto depois, a lágrima era enxugada e virava sorriso. No casal, apenas um deles usava aliança. Havia algo ali muito certo para ser um casamento. Em silêncio, ela torceu para que a mulher fosse algum tipo de amante, e que roubasse muito dinheiro do cara antes de arrasá-lo.
- Você mora perto daqui?
- Não muito. O trânsito estava horrível. Demoramos um pouco a chegar.
- Chegou até cedo. Veio sozinho?
- Não, com a mulher e filhos. Estamos nos separando.
- Imagino que deve ser difícil.
- Fica ainda mais difícil nesse lugar sem bebida.
- Tem algumas cervejas escondidas na geladeira da cozinha. Aceita?
Fernando diz sim, enquanto é levado pela mão. Muitas cervejas seriam necessárias para tornar aquela noite um pouco mais agradável.
Ela vê o marido levantando acompanhado e fica enciumada. Não pelo fato de estar sendo substituída, mas pela beleza de sua companhia. Por mais que maquiagem e um bom vestido possam ajudar, nada substitui o frescor virginal da pouca idade e isso era algo com que ela não podia competir. Jamais. Melhor dançar. Ao som de Menudos, lembrando os anos 80, quando era menina. Não podia culpar a bebida por seus atos. Quem iria julgá-la depois que soubesse que fazia o que fazia por estar se separando? Sua mãe, com certeza.
Os pequenos brincavam e comiam, como se fosse o último momento de festa. Entre gritos de gol e choros de bebês, o filho mais velho notava que algo estava diferente em casa. As brigas, antes constantes, agora ficavam mais silenciosas. Os jantares eram mais harmônicos, civilizados. Papai começou a buscá-lo na escola também. Isso não era legal. Gostava de contar pra mãe tudo que tinha acontecido no dia, em detalhes, enquanto ela dirigia ouvindo atentamente. Para a pequena, era estranho ver seu pai chorando, quieto, às vezes. O super-homem que a carregava no colo parecia ficar mais fraco quando chegava em casa. Ele parou de lhe dar apelidos, levar no supermercado e brincar no chafariz do shopping. Talvez isso fosse crescer, ou não.
- Não agüento mais essa música. Acho que estou ficando velho.
- Que nada, você está muito bem. Elegante, eu diria.
- Obrigado. Isso foi um flerte?
- E se for?
- Então é.
(risos)
- Vamos sair daqui?
- Pra onde?
- Pra longe.
- Pra casa?
- A minha ou a sua?
- Não sei.
- A minha.
Parecia vingança, Fernando levar alguém pra sua casa, naquela noite. Sair da festa escondido para transar. Transar não, comer, meter, foder. Em casa, em sua cama. Aquela casa que nunca foi sua, cuja decoração nunca teve seu gosto. O ar frio e controlado de Mariana parecia tomar conta do lugar, sufocando-o. Melhor brincar com as palavras, no trabalho. Frases não dizem tudo o que querem dizer, mas Mariana dizia. E isso era tudo, tudo que ele precisava para não querer ir pra casa todas as noites. A não ser naquela noite.
Ela suava. Canta, dança, sem parar. Não se reprima. Pais babando ao ver Mariana, iluminando o salão, sozinha e reluzente. Em outra sintonia, outra conexão, outro mundo, ela sabia que agora, daqui pra frente, seria assim. Teria que dançar a sua dança sozinha. Redescobrir, dentro de si mesma, forças para continuar. Lembrar o que comia, o que pensava e o que fazia antes de se casar. Um misto de medo e excitação tornava apreensiva a espera pela separação. O pronome “nós” seria aposentado, pelo menos por um tempo. Ela agora era “eu”. “E quem sou eu mesmo?”, pensava.
- Posso te pagar um drink?
- Não têm bebidas aqui.
- Eu consigo, se você quiser.
- Mas você é casado.
- Você também é casada. Isso nos torna um tanto quanto inofensivos um ao outro, não?
- Separada. Ainda posso aceitar aquele drink?
- Claro.
Mariana o acompanha até a cozinha, pega uma bebida e encosta na parede ao lado do bar, bem ao fundo, exatamente onde ela viu o casal não-casal se divertindo. Suas pernas estão cansadas e o rapaz tinha olhos bonitos, braços grandes. Ela queria resistir, só não sabia como.
Em casa, ele abre a porta e vê tudo apagado.  O relevo dos objetivos, à meia luz, tornava tudo mais estranho. Comum era chegar em casa e ver Mariana o esperando, assistindo televisão até tarde. Um boa noite e ele seguia, em silêncio, até o banho. Do banho, para a cama. Antes dela deitar. Agora, ali, acompanhado, observava a casa via, o teto da sala com infiltração, o pó sob os móveis e a cortina suja de giz vermelho. Passaram pela sala, pelo quarto das crianças, esse que ainda conservava um pouco de graça, e esperança de que algo poderia ser diferente. Ou, pelo menos, menos pior.
- Tira a roupa.
- Não sei se consigo.
- Falei pra não virmos pra sua casa.
- Não é isso, é tudo. Não é fácil, não sei dizer, mas não imagino como vai ser daqui pra frente, os próximos segundos. A gente aprende a planejar uma vida a dois, por mais miserável que ela seja. Tenho medo de voltar à minha vida miserável, sozinho.
- Você não precisa fazer nada que não queira. Podemos voltar.
- Eu quero. Eu quero. Mas não hoje, não agora, não assim, não aqui. Achei que queria, mas não quero mais. Não sei.
- Ela sabe que você é gay?
- Desconfia.
- Você a ama?
- Sim, mas isso não é suficiente.
- Então, não seja tão duro consigo mesmo. Não responda a perguntas nunca feitas. Vamos voltar a festa e termine essa noite como se deve. Como ela começou. Não precisamos fazer nada, não hoje. É só uma possibilidade, e a vida está cheia delas. Você vai ter que reaprender isso, sozinho.
- Quando a gente é novo, temos vozes dentro da cabeça da gente, que nos dizem do que gostamos, o que não gostamos, o que queremos, o que não queremos, como somos, o que acham que somos, pra onde vamos. Aos poucos, elas foram sumindo. Não as ouço mais. Esse silêncio que me incomoda. É isso que sobrou. Não há mais vozes, nem expectativas. Sobrou nada. Ficou “eu”. O eu sozinho e nada mais.
- Se você as ouvisse, agora, o que acha que elas diriam?
Ela resiste. Ele insiste. Ela cede, ele não cessa e eles se beijam. Muito por pouco tempo, intenso e inseparável. Contando os segundos e aproveitando cada impulso, Mariana aproveita aquele espaço reservado do tempo para se revigorar, sentir-se querida, desejada, amada, sensual, gostosa. O beijo a esquenta e desperta e agora ela tem certeza que há um caminho a continuar. Ainda mais depois de ser flagrada, pela mãe do aniversariante, com o pai do aniversariante. A esposa traída não faz escândalo, mas exige que ela vá embora. Sem perder a pose, ela vai, chama o filho mais velho, que vem emburrado, resmungando, mas vem, para o lado da mãe.
A filha mais nova chora, reclama. Não quer ir. Está tão cedo e ela não comeu ainda nem um brigadeiro. O pai chega e a pega no colo. Faz um aviãozinho com a menina, que sorri, ri e abraça seu pai. Fernando olha para Mariana e a chama para ir embora, para casa. Ela acena, concordando.
Era a última vez e certamente parecia. Silêncio harmonioso, o rádio tocando uma boa música dos anos 80 e duas crianças no carro, dormindo. Não há nada a se falar, tudo já foi dito, agora é só começar a fazer, aos poucos, o que o destino se incumbiu de encaminhar. Terminava, ali, a última aparição pública do casal Sampaio.

2 comments 25 Abril 2008

Apartamento 25

Tarde de sexta-feira, fim de férias. Esses últimos dias parecem passar tão rápido que são perfeitos para não se fazer nada. Tentar resolver tudo em um dia só apenas torna a sensação de perda mais forte. Pegou a bicicleta para dar uma volta, lembrando que a ganhou de seu pai, num aniversário qualquer há muitos anos. Talvez, nem tantos anos assim, mas parecia que por um longo tempo que não ganhava nada novo. Aquela bicicleta poderia ter sido o último presente que recebeu, mas ele não se recordaria. O apego ao que tem é muito menor do que a gana pelo que não possui. Com um misto de saudade e senso de obrigação com sua consciência, foi visitar a casa do pai, como surpresa. Imaginou a sensação do velho de ver o filho ali, disposto a passar a tarde com ele. Por outro lado, viu a possibilidade de ele não estar ali. Nesse caso, poderia subir, assistir TV e acender um baseado.

O caminho era curto, os pensamentos soltos, em poucas pedaladas, estava ali, em frente ao prédio. Não lembrava o número do apartamento. Sentiu vergonha. Como poderia não saber onde seu pai morava? Ligou para a irmã que afirmou: apartamento 25. Tocou. Sem resposta. Tocou novamente. Uma voz de mulher atendeu. Um susto. Ficou mudo, paralisado. “Alô, alô, quem ta aí?”, ela disse. Ele pegou a bicicleta e deu meia-volta, sem responder. Sempre soube que seu pai poderia estar com outra pessoa, mas não há nada como ouvir a voz que por tanto tempo imaginou. Era a voz da outra. Ela não era um demônio, um monstro ou algum tipo de vilã de desenho animado. Era alguém que atendia ao interfone, falando alô como qualquer um. Como sua mãe faria. Desde o começo, ele se recusou a conhecê-la, por orgulho e por preservação. Não é um defensor da moral e dos bons costumes, mas se negava a aceitar como aquilo havia começado. Um caso que tinha que terminar, e ponto. Não sabia como lidar em ver seu pai com outra mulher, fazendo planos, trocando risos e olhares, coisa que ele não via há tanto tempo em sua própria casa. Sentiu pena do pai, que não via sua nova vida aceita pelos filhos. Pena de sua mãe, que ainda tinha esperança que os dois pudessem voltar, para tentar, mais uma vez, ser o que nunca foram. Pena de si mesmo, por ter que aceitar que não havia como negar. Algo mudou, se não tudo. Quase tudo. Aquela bicicleta não mudou. Por mais que houvesse uma ferrugem ou outra que insistisse em corroer a estrutura, ela permanecia em pé, funcional, segura. Foi um presente de aniversário, há muitos anos. Mas ainda era um presente, por todos os aniversários. Ele se lembrava, sim, de quando ganhou a bicicleta. Foi aos 12 anos, era uma noite de calor de julho, com toda a família em sua casa. A camiseta que vestia era vermelha, sua primeira calça jeans e all-star azul, desamarrado. Ele ia tropeçar, sua mãe disse. Não tropeçou. O cheiro de bolo de chocolate, de vela queimada, de bala de coco, de crianças alegres. Ah, ele lembrava, sim. Só fingia não lembrar para tornar mais fácil suportar a dor de saber que aquilo tudo não iria voltar. Era melhor voltar para casa. Podia chegar ali e contar para sua mãe sobre o que tinha visto. Não há nada como a verdade para nos fazer acordar. Ela iria ouvir por alguns minutos, chorar por algumas horas e se entristecer por uma vida toda que não volta mais. Não parecia melhor contar. Calculou o preço da honestidade e viu que o resultado era negativo. O silêncio paga a prazo, a verdade é à vista. Quando se vê, sai mais caro ainda. Melhor, o silêncio, por hoje. Era o preço da bicicleta. Era o preço do sossego. Quanto vale o teu silêncio?

Add comment 24 Abril 2008


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