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A Última Aparição Pública do Casal Sampaio
Era a última vez e certamente parecia. Ele, de calça preta e camisa branca, ela de vestido vermelho. Frases curtas, ritmo fúnebre e duas crianças no carro. Palavras cortadas, afirmações atravessadas e duas crianças comendo salgadinho. Decidiram avisar aos poucos da separação, parente por parente. Um anúncio oficial seria duro e dividira amigos. Para evitar qualquer confusão posterior ou disputa por confidentes, decidiram: ele conta seu lado da história para quem conheceram antes de 1988 e ela fica com os mais recentes pra si.
O carro pára e eles descem pela última vez. Decidiram que o automóvel fica com ele. Ela fica com a casa. Nunca gostou muito de sedãs, mesmo. Pega na mão do filho, o pai carrega a menor nos braços e tocam a campainha do Buffet. Lá dentro, música alta, crianças correndo de um lado pro outro, no ápice do açúcar no sangue e cheiro de doces e salgados fritos a óleo diesel.
- Boa tarde, qual o nome de vocês?
- Mariana e Fernando Sampaio, somos amigos do tio do aniversariante.
- Ah, sim, claro. Sejam bem-vindos. Podem colocar os presentes na caixa ao lado, por favor.
A pilha colorida de presentes demonstrava o quão importante aquela festinha de criança poderia ser. Em buffets infantis troca-se cartões de apresentação como quarentões bem sucedidos trocam de namorada. Ou seria caso. Fernando agora, mais do que nunca, precisava disso. Novos contatos, novos trabalhos e possíveis amores. Ou boas transas, pelo menos. Com duas crianças para sustentar via pensão ele começava a se tornar o que chamam de ‘pai postiço’, aquele que finge que cuida e se preocupa, depositando dinheiro em dia e comprando material escolar completo antes do ano letivo.
Ao som de Xuxa em uma versão em espanhol, Mariana quase não percebe o soltar das mãos do filho, que corre em direção a outras crianças, com brilhos nos olhos. Parecia que foi ontem que ela mesma chegava em festas assim, com vestidos muito mais comportados. Quando pequena, atraía o olhar de inveja de outras mulheres que diziam: “Ela vai ser linda quando crescer”. Mas o tempo passou, e sua silhueta ‘mothern’, mãe e profissional do administrativo de uma empresa de RH, à base de bolachas e café, não atraía mais do que alguns olhares de um ou outro pai fracassado que a achava mais sexy do que suas mulheres gordas. O vestido lhe garantia alguns paus duros e um pouco de emoção nesses últimos dias.
Na fila do bar, ele pede um whisky. Não tem. Pede vodka. Não tem. Cerveja? Também. Aniversário de crentes, uma latinha de coca descendo direto para sua barriga. A síndrome metabólica o pegou em cheio também. As noites até tarde no trabalho viraram pretexto para comer mal e não comer a mulher. Os parágrafos, fatos e fontes das notícias que produzia lhe pareciam mais excitantes. Nada que desse muito tesão, mas era mais agradável do que ir pra casa e assistir o Jornal Nacional.
Um grupo de mães, ávidos de novidade, ataca Mariana como andorinhas em peixe morto à beira da praia. O belo parte de brincos em suas orelhas chamou atenção de longe à mãe do aniversariante. Queriam saber de quem ela ganhou, quando, onde, como e por quê. “Essa deve valer a pena”, pensou uma das mães. “Com certeza isso é compensação por estar chifrando ela”, imaginou outra. Enquanto conversavam entre si, distraídas pelo pequeno brilhante no brinco, elas deixaram de notar que uma pequena e tímida lágrima escorria pelos olhos de Mariana. Ela via ao fundo, do lado do bar, um casal se beijando com amor. E paixão. E tesão. Ah, que saudade! “Será que algum dia vou ter isso de novo? Se não tiver, que o Fernando também não tenha”, suspirou. Um minuto depois, a lágrima era enxugada e virava sorriso. No casal, apenas um deles usava aliança. Havia algo ali muito certo para ser um casamento. Em silêncio, ela torceu para que a mulher fosse algum tipo de amante, e que roubasse muito dinheiro do cara antes de arrasá-lo.
- Você mora perto daqui?
- Não muito. O trânsito estava horrível. Demoramos um pouco a chegar.
- Chegou até cedo. Veio sozinho?
- Não, com a mulher e filhos. Estamos nos separando.
- Imagino que deve ser difícil.
- Fica ainda mais difícil nesse lugar sem bebida.
- Tem algumas cervejas escondidas na geladeira da cozinha. Aceita?
Fernando diz sim, enquanto é levado pela mão. Muitas cervejas seriam necessárias para tornar aquela noite um pouco mais agradável.
Ela vê o marido levantando acompanhado e fica enciumada. Não pelo fato de estar sendo substituída, mas pela beleza de sua companhia. Por mais que maquiagem e um bom vestido possam ajudar, nada substitui o frescor virginal da pouca idade e isso era algo com que ela não podia competir. Jamais. Melhor dançar. Ao som de Menudos, lembrando os anos 80, quando era menina. Não podia culpar a bebida por seus atos. Quem iria julgá-la depois que soubesse que fazia o que fazia por estar se separando? Sua mãe, com certeza.
Os pequenos brincavam e comiam, como se fosse o último momento de festa. Entre gritos de gol e choros de bebês, o filho mais velho notava que algo estava diferente em casa. As brigas, antes constantes, agora ficavam mais silenciosas. Os jantares eram mais harmônicos, civilizados. Papai começou a buscá-lo na escola também. Isso não era legal. Gostava de contar pra mãe tudo que tinha acontecido no dia, em detalhes, enquanto ela dirigia ouvindo atentamente. Para a pequena, era estranho ver seu pai chorando, quieto, às vezes. O super-homem que a carregava no colo parecia ficar mais fraco quando chegava em casa. Ele parou de lhe dar apelidos, levar no supermercado e brincar no chafariz do shopping. Talvez isso fosse crescer, ou não.
- Não agüento mais essa música. Acho que estou ficando velho.
- Que nada, você está muito bem. Elegante, eu diria.
- Obrigado. Isso foi um flerte?
- E se for?
- Então é.
(risos)
- Vamos sair daqui?
- Pra onde?
- Pra longe.
- Pra casa?
- A minha ou a sua?
- Não sei.
- A minha.
Parecia vingança, Fernando levar alguém pra sua casa, naquela noite. Sair da festa escondido para transar. Transar não, comer, meter, foder. Em casa, em sua cama. Aquela casa que nunca foi sua, cuja decoração nunca teve seu gosto. O ar frio e controlado de Mariana parecia tomar conta do lugar, sufocando-o. Melhor brincar com as palavras, no trabalho. Frases não dizem tudo o que querem dizer, mas Mariana dizia. E isso era tudo, tudo que ele precisava para não querer ir pra casa todas as noites. A não ser naquela noite.
Ela suava. Canta, dança, sem parar. Não se reprima. Pais babando ao ver Mariana, iluminando o salão, sozinha e reluzente. Em outra sintonia, outra conexão, outro mundo, ela sabia que agora, daqui pra frente, seria assim. Teria que dançar a sua dança sozinha. Redescobrir, dentro de si mesma, forças para continuar. Lembrar o que comia, o que pensava e o que fazia antes de se casar. Um misto de medo e excitação tornava apreensiva a espera pela separação. O pronome “nós” seria aposentado, pelo menos por um tempo. Ela agora era “eu”. “E quem sou eu mesmo?”, pensava.
- Posso te pagar um drink?
- Não têm bebidas aqui.
- Eu consigo, se você quiser.
- Mas você é casado.
- Você também é casada. Isso nos torna um tanto quanto inofensivos um ao outro, não?
- Separada. Ainda posso aceitar aquele drink?
- Claro.
Mariana o acompanha até a cozinha, pega uma bebida e encosta na parede ao lado do bar, bem ao fundo, exatamente onde ela viu o casal não-casal se divertindo. Suas pernas estão cansadas e o rapaz tinha olhos bonitos, braços grandes. Ela queria resistir, só não sabia como.
Em casa, ele abre a porta e vê tudo apagado. O relevo dos objetivos, à meia luz, tornava tudo mais estranho. Comum era chegar em casa e ver Mariana o esperando, assistindo televisão até tarde. Um boa noite e ele seguia, em silêncio, até o banho. Do banho, para a cama. Antes dela deitar. Agora, ali, acompanhado, observava a casa via, o teto da sala com infiltração, o pó sob os móveis e a cortina suja de giz vermelho. Passaram pela sala, pelo quarto das crianças, esse que ainda conservava um pouco de graça, e esperança de que algo poderia ser diferente. Ou, pelo menos, menos pior.
- Tira a roupa.
- Não sei se consigo.
- Falei pra não virmos pra sua casa.
- Não é isso, é tudo. Não é fácil, não sei dizer, mas não imagino como vai ser daqui pra frente, os próximos segundos. A gente aprende a planejar uma vida a dois, por mais miserável que ela seja. Tenho medo de voltar à minha vida miserável, sozinho.
- Você não precisa fazer nada que não queira. Podemos voltar.
- Eu quero. Eu quero. Mas não hoje, não agora, não assim, não aqui. Achei que queria, mas não quero mais. Não sei.
- Ela sabe que você é gay?
- Desconfia.
- Você a ama?
- Sim, mas isso não é suficiente.
- Então, não seja tão duro consigo mesmo. Não responda a perguntas nunca feitas. Vamos voltar a festa e termine essa noite como se deve. Como ela começou. Não precisamos fazer nada, não hoje. É só uma possibilidade, e a vida está cheia delas. Você vai ter que reaprender isso, sozinho.
- Quando a gente é novo, temos vozes dentro da cabeça da gente, que nos dizem do que gostamos, o que não gostamos, o que queremos, o que não queremos, como somos, o que acham que somos, pra onde vamos. Aos poucos, elas foram sumindo. Não as ouço mais. Esse silêncio que me incomoda. É isso que sobrou. Não há mais vozes, nem expectativas. Sobrou nada. Ficou “eu”. O eu sozinho e nada mais.
- Se você as ouvisse, agora, o que acha que elas diriam?
Ela resiste. Ele insiste. Ela cede, ele não cessa e eles se beijam. Muito por pouco tempo, intenso e inseparável. Contando os segundos e aproveitando cada impulso, Mariana aproveita aquele espaço reservado do tempo para se revigorar, sentir-se querida, desejada, amada, sensual, gostosa. O beijo a esquenta e desperta e agora ela tem certeza que há um caminho a continuar. Ainda mais depois de ser flagrada, pela mãe do aniversariante, com o pai do aniversariante. A esposa traída não faz escândalo, mas exige que ela vá embora. Sem perder a pose, ela vai, chama o filho mais velho, que vem emburrado, resmungando, mas vem, para o lado da mãe.
A filha mais nova chora, reclama. Não quer ir. Está tão cedo e ela não comeu ainda nem um brigadeiro. O pai chega e a pega no colo. Faz um aviãozinho com a menina, que sorri, ri e abraça seu pai. Fernando olha para Mariana e a chama para ir embora, para casa. Ela acena, concordando.
Era a última vez e certamente parecia. Silêncio harmonioso, o rádio tocando uma boa música dos anos 80 e duas crianças no carro, dormindo. Não há nada a se falar, tudo já foi dito, agora é só começar a fazer, aos poucos, o que o destino se incumbiu de encaminhar. Terminava, ali, a última aparição pública do casal Sampaio.
2 comments 25 Abril 2008