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	<title>Samba de Gringo &#187; morte</title>
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	<description>Em poucas palavras, variedade e o escambau.</description>
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		<title>Samba de Gringo &#187; morte</title>
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		<title>Um Jovem em Tempos de Seca</title>
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		<pubDate>Wed, 21 May 2008 17:24:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe Luno</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não queria falar da casa, das roupas ou do braço. Nem dos pelos da perna, da barba malfeita ou do relógio atrasado. Deitou-se e se pôs a ver o mundo passar por entre os dedos de seus pés. 
Sussurros escondidos debaixo do travesseiro começam a se espalhar pelo quarto. Tomam do chão às paredes, lentamente [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=semacento.wordpress.com&blog=3400160&post=36&subd=semacento&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p class="MsoNormal"><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;color:black;">Não queria falar da casa, das roupas ou do braço. Nem dos pelos da perna, da barba malfeita ou do relógio atrasado. Deitou-se e se pôs a ver o mundo passar por entre os dedos de seus pés. </span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;color:black;">Sussurros escondidos debaixo do travesseiro começam a se espalhar pelo quarto. Tomam do chão às paredes, lentamente ocupando tempo e espaço até chegar a ele, deitado na cama, inerte. A voz calma e baixa diz algo que ele não entende, mas o lembra de algo. Um grito primitivo, surdo, sem forma, com som de buraco, de nada específico de língua ou melodia, um odor sonoro encantador e surreal. O som do nascer, o lamento do morrer e a angústia que é viver estão naquele sopro que não o deixam continuar dormir.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;color:black;">Flutuando no meio do nada, em algum lugar ali, onde mundos entram em contato, ele vê a loucura em seus próprios olhos e a razão saindo pela porta do quarto. A casa treme, o corpo permanece tácito e o sopro hipnotiza. Ele adormece. Era uma morte sem grito, desfecho sem cena, um fim desprovido de palavras e definições. Apenas o som indicador de mudança de estado, o atravessamento de ele para o, de o para algo, de algo para um, de um para algum, de algum para&#8230; e pára e ele vê tudo que irá precisar. Um tiro na escuridão e uma boa razão para isso tudo.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;color:black;">Procurando pelas ovelhas, encontra um campo infestado de dentes-de-leão. Lembra de uma passagem de Orlando, de Virginia Wolf, em cujos relvados não crescia um dente-de-leão há séculos de tão bem tratados que eram. Pior para eles! Aquele lugar lindo e silencioso era a morada do vento da tarde, que se espalha em direção norte, sul, leste e oeste preservando a calmaria no centro. Andou mais um pouco, por cima das flores e arrancou dali um solitário dente-de-leão. Levantou a flor em direção ao céu crepúsculo, laranja e fez um pedido, como costumava quando era criança. </span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;color:black;">Com o punho fechado, segurando com força, soprou devagar&#8230;mas o suficiente para separar o conjunto de sementes do pequeno quartilho, disseminando-as pelo campo. Aquele simples impulso de ar foi capaz de levantar o campo de si, inundando o lugar de pequenos pára-quedas de vida, flor e pólen. Iluminados pelo sol, pareciam fogos de artifício, explodindo pela manhã em um fim de tarde silencioso. A quantidade de partículas e fragmentos tornou a visão do horizonte quase impossível e cego pelas flores, ele arrisca dois passos em direção. Em vão. </span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;color:black;">Senta no chão e espera a poeira cósmica se assentar. Deita e fita ao céu, aguardando a calmaria voltar à morada do vento com a resposta do seu pedido. Sem medo, sem tempo, só esperança. Os índios que moravam por ali chamavam a flor de &#8220;pegadas-de-homem-branco&#8221;. As inflorescências brancas indicavam que alguém esteve por ali. Era só esperar. E faz-se o novo.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;color:black;"> </span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;color:black;">“Os olhos não estão aqui<br />
Aqui os olhos não brilham<br />
Neste vale de estrelas tíbias<br />
Neste vale desvalido<br />
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos</span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;color:black;">&#8212;</span></p>
<p class="MsoNormal"><em><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;color:black;">Assim expira o mundo<br />
Assim expira o mundo<br />
Assim expira o mundo<br />
Não com uma explosão, mas com um suspiro”</span></em></p>
<p class="MsoNormal"><em><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;color:black;">T.S. Elliot.</span></em><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;color:black;"></span></p>
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		<title>Fragmentos de Uma Vida Mundana</title>
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		<pubDate>Thu, 15 May 2008 20:40:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe Luno</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Joe tinha menos de dois anos quando fez, pela primeira vez, xixi nas calças. Logo em seguida, pisou descalço no chão, ato logo repreendido por sua mãe. Irritado com o repúdio, não parou por aí. Cuspia em visitas, mordia o cachorro e ameaçava a baba com uma mamadeira cheia de leite fervente. Era o diabo. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=semacento.wordpress.com&blog=3400160&post=32&subd=semacento&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Joe tinha menos de dois anos quando fez, pela primeira vez, xixi nas calças. Logo em seguida, pisou descalço no chão, ato logo repreendido por sua mãe. Irritado com o repúdio, não parou por aí. Cuspia em visitas, mordia o cachorro e ameaçava a baba com uma mamadeira cheia de leite fervente. Era o diabo. Expulsa Satanás! Ou seria expulsa, Satanás?</p>
<p>Poucos anos depois, já tomava sorvete no frio, corria em casa com tesouras (sem ponta) e cadarços desamarrados. Nunca caiu. Tinha a mania de misturar Coca-Cola com leite, que bebia comendo pão de forma e leite condensado. Assistia ao Aqui Agora enquanto sua pequena barriga juvenil inchava mais do que boi gordo. Coçou a conjutivite, a catapora e passou rubéola para  a irmã mais nova. Em troca, ganhou chaxumba. Essa subiu, desceu como bolinha de pebolim até se alojar em seu testículo. Com três esferas, deu início à sua precoce puberdade.</p>
<p>Aos 11 já sabia anatomicamente o que era sexo. Aos 12, já sabia, biblicamente falando, o que era sexo. Suas brincadeiras de casinha com a vizinha incluiam crianças, amor, roupas lavadas e mãos limpas antes do jantar.</p>
<p>Conseguiu seu primeiro emprego como pagador de promessas. Aproveitava as viagens a Aparecida para roubar fiéis e comer infiéis. Odiado por 10 em cada 10 maridos cornos, refugiou-se no Rio de Janeiro, onde aprendeu o dom da malandragem. Mas logo desaprendeu, assim que chegou a São Paulo. Desceu na estação Sé do Metrô, pelo lado esquerdo. Na confusão, perdeu a coragem, a carteira e a libido.</p>
<p>Restava comer. Aos 18, já era famoso nos rodízios de pizza e teve sua primeira overdose de quindins assassinos. Viu a luz no final do túnel e uma placa que dizia: &#8220;Vire à esquerda&#8221;. Seguiu pela direita e lá encontrou Deus jogando The Sims 2. O Tal parecia tão entretido que achou melhor não incomodar. Voltou pelo caminho mais escuro.</p>
<p>De volta a vida, se entregou ao sofá. A mãe cozinhava dia sim, dia não, uma quantidade suficiente para mantê-lo abastecido. Apaixonou-se por Sonia Abrão. Voltou a fazer xixi na cama e reclamar de pesadelos com dinossauros.</p>
<p>Um dia, a vizinha tocou a campainha com ares de rainha. A rima entrou em sua vida e ali se fez um poeta, de poucas palavras e muitos quilos. Tratou de perder as gordurinhas na esquina para conquistar a loira que morava ao lado. Esbelto e simpático, bateu à porta: &#8220;Olá, tudo bem?&#8221;. A porta abriu e fechou-se em segundos, deixando fios de cabelo presos no batente.</p>
<p>Depressivo e insatisfeito, voltou pra casa. Abriu o album de família e viu como havia sido feliz quando era criança. Mandou a mãe à merda e o pai ao mercado. Fechou-se no quarto com algumas caixas de Dan Top e barris de coca-cola.</p>
<p>Foi encontrado dias depois, embaixo da cama, com o lençol enrolado na garganta. Um suícidio passional, ocasionado por uma overdose de pequenos pecados, combinados à doces e gorduras-trans. No velório, poucas pessoas, a não ser a mãe, o pai, o ex-chefe e uma loira que chorava copiosamente. Ah, não! Era amor! Ela era tímida, por isso fechou a porta tão depressa. Que pena. Bom, nem sempre a vida faz sentido.</p>
<p>Fim.</p>
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		<title>Horbal</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Apr 2008 15:44:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Felipe Luno</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sol, muito sol e poucas horas no meu dia. Um ônibus lotado, um assento vago e eu sentei, antes de girar a catraca. Ao meu lado, velhinhos e velhinhas rumo a lugar algum, contabilizando mais alguns anos de vida. Para mim, ali, o tempo não passava. Os livros pesavam sobre meu colo e os pensamentos, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=semacento.wordpress.com&blog=3400160&post=23&subd=semacento&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Sol, muito sol e poucas horas no meu dia. Um ônibus lotado, um assento vago e eu sentei, antes de girar a catraca. Ao meu lado, velhinhos e velhinhas rumo a lugar algum, contabilizando mais alguns anos de vida. Para mim, ali, o tempo não passava. Os livros pesavam sobre meu colo e os pensamentos, em minha cabeça. E ainda era meio-dia.<br />
O ônibus pára. Do ponto, sobe meu avô, sem dificuldades. Fala algo com o motorista e procura um banco para sentar. Eu não queria conversar. Escolher palavras, despertar assuntos, olhar para os olhos de alguém e dizer algo banal, ou não. Não queria nada.Girei a catraca e fui para o outro lado, cercado de jovenzinhos e seus fones estéreos e horas vagas. Ele não me viu. Acho que não viu. Estava tão cansado que pouco sentia culpa por ter sido tão anti-social, por ser vazio e alheio a um pouco de carinho. Os livros já não pesavam mais tanto quanto a culpa que estava ali, adormecida. Os jovenzinhos e seus fones brancos estéreos e olhar distante me incomodavam mais do que o peso do acúmulo dos anos dos corpos daqueles velhinhos que ocupavam a frente do ônibus. Eu nunca quis envelhecer. Fiz um pacto comigo mesmo, de morrer jovem, aos 30 anos. Espero que a natureza respeite e que Deus aceite. Meu avô não parecia comigo, tinha a pele escura, cabelo grisalho e os olhos claros, bonitos. Eu tinha culpa. Culpa e vergonha de não dar um olá. Se ele tivesse me visto, era pior aparecer lá depois. Soaria falso. Se ele não me viu, a conversa seria ridícula, separada por uma catraca e ouvida por um ônibus inteiro. Ah, se eu não tivesse passado a catraca podia sim ter dado um oi, um simples oi, e dormido. Fechar meus olhos e descansar o sono dos justos. Dormi, mas sem justiça, um sono de culpa. No sonho, que realmente parecia sonho, vi meu avô girar a catraca e vir até mim. Sentou ao meu lado, pegou meus livros e colocou em seu colo. Abraçou a minha mão com a sua e ameaçou dizer algo, mas não disse. Olhou-me por alguns segundos e disse: até logo. Acordei, assustado, com a cabeça encostada no vidro. Levantei, era hora de descer. Procurei pelo meu avô, do outro lado do ônibus. Ele já não estava lá. Esta foi a ultima vez que vi meu avô. Hoje, uma grande catraca entre a vida e a morte separa nós dois. O que há do outro lado, eu ainda não sei. Na minha cabeça, ele está cercado por velhinhos e eu aqui, com meus jovenzinhos de fones de ouvido estéreos. Eu, que me recusei a dar um ‘oi’, ouvi um ‘tchau’ que deve durar para sempre até que eu gire esta catraca, antes ou depois dos meus 30 anos.</p>
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