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Apartamento 25

Tarde de sexta-feira, fim de férias. Esses últimos dias parecem passar tão rápido que são perfeitos para não se fazer nada. Tentar resolver tudo em um dia só apenas torna a sensação de perda mais forte. Pegou a bicicleta para dar uma volta, lembrando que a ganhou de seu pai, num aniversário qualquer há muitos anos. Talvez, nem tantos anos assim, mas parecia que por um longo tempo que não ganhava nada novo. Aquela bicicleta poderia ter sido o último presente que recebeu, mas ele não se recordaria. O apego ao que tem é muito menor do que a gana pelo que não possui. Com um misto de saudade e senso de obrigação com sua consciência, foi visitar a casa do pai, como surpresa. Imaginou a sensação do velho de ver o filho ali, disposto a passar a tarde com ele. Por outro lado, viu a possibilidade de ele não estar ali. Nesse caso, poderia subir, assistir TV e acender um baseado.

O caminho era curto, os pensamentos soltos, em poucas pedaladas, estava ali, em frente ao prédio. Não lembrava o número do apartamento. Sentiu vergonha. Como poderia não saber onde seu pai morava? Ligou para a irmã que afirmou: apartamento 25. Tocou. Sem resposta. Tocou novamente. Uma voz de mulher atendeu. Um susto. Ficou mudo, paralisado. “Alô, alô, quem ta aí?”, ela disse. Ele pegou a bicicleta e deu meia-volta, sem responder. Sempre soube que seu pai poderia estar com outra pessoa, mas não há nada como ouvir a voz que por tanto tempo imaginou. Era a voz da outra. Ela não era um demônio, um monstro ou algum tipo de vilã de desenho animado. Era alguém que atendia ao interfone, falando alô como qualquer um. Como sua mãe faria. Desde o começo, ele se recusou a conhecê-la, por orgulho e por preservação. Não é um defensor da moral e dos bons costumes, mas se negava a aceitar como aquilo havia começado. Um caso que tinha que terminar, e ponto. Não sabia como lidar em ver seu pai com outra mulher, fazendo planos, trocando risos e olhares, coisa que ele não via há tanto tempo em sua própria casa. Sentiu pena do pai, que não via sua nova vida aceita pelos filhos. Pena de sua mãe, que ainda tinha esperança que os dois pudessem voltar, para tentar, mais uma vez, ser o que nunca foram. Pena de si mesmo, por ter que aceitar que não havia como negar. Algo mudou, se não tudo. Quase tudo. Aquela bicicleta não mudou. Por mais que houvesse uma ferrugem ou outra que insistisse em corroer a estrutura, ela permanecia em pé, funcional, segura. Foi um presente de aniversário, há muitos anos. Mas ainda era um presente, por todos os aniversários. Ele se lembrava, sim, de quando ganhou a bicicleta. Foi aos 12 anos, era uma noite de calor de julho, com toda a família em sua casa. A camiseta que vestia era vermelha, sua primeira calça jeans e all-star azul, desamarrado. Ele ia tropeçar, sua mãe disse. Não tropeçou. O cheiro de bolo de chocolate, de vela queimada, de bala de coco, de crianças alegres. Ah, ele lembrava, sim. Só fingia não lembrar para tornar mais fácil suportar a dor de saber que aquilo tudo não iria voltar. Era melhor voltar para casa. Podia chegar ali e contar para sua mãe sobre o que tinha visto. Não há nada como a verdade para nos fazer acordar. Ela iria ouvir por alguns minutos, chorar por algumas horas e se entristecer por uma vida toda que não volta mais. Não parecia melhor contar. Calculou o preço da honestidade e viu que o resultado era negativo. O silêncio paga a prazo, a verdade é à vista. Quando se vê, sai mais caro ainda. Melhor, o silêncio, por hoje. Era o preço da bicicleta. Era o preço do sossego. Quanto vale o teu silêncio?

Add comment 24 Abril 2008


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